A Copa do Mundo costuma ser cruel com quem chega carregando certezas. O Paraguai desembarcou para a Copa do Mundo Unidos com a velha assinatura de sua escola: time compacto, defesa áspera, jogo emocional, paciência para sofrer e esperança de transformar cada bola parada em ameaça. Nas Eliminatórias sul-americanas, havia tomado apenas dez gols em 18 partidas. Era, em tese, um adversário ruim de enfrentar logo na estreia. Um time acostumado a deixar o jogo feio, apertado e desconfortável. Porém, com a bola rolando, os Estados Unidos não só golearam, por 4 a 1, mas assombraram o mundo com uma aula de futebol, em Los Angeles.
Os norte-americanos entenderam o jogo antes de o Paraguai conseguir respirar. Pressionaram alto, circularam a bola com velocidade, atacaram os intervalos entre lateral e zagueiro, usaram Christian Pulisic como ponto de desequilíbrio e no talento de Folarin Balogun o que tantas seleções americanas do passado não tiveram: um centroavante capaz de transformar superioridade em gols.

Estados Unidos insaciável
O primeiro veio cedo, aos sete minutos, e nasceu de uma jogada que resumiu o plano. Pulisic recebeu, encarou, costurou por dentro e bagunçou a última linha paraguaia. A bola chegou à área, passou por Weston McKennie e o são-paulino Damián Bobadilla, empurrou para a própria meta. Gol contra na súmula, mas tento dos Estados Unidos na ideia. Foi a recompensa pela agressividade inicial, não um acidente isolado.
A partir dali, o Paraguai, que construiu sua classificação em cima de controle defensivo, foi obrigado a fazer o que menos gosta: correr atrás. E correr atrás, contra um time que se movia com tanta leveza, virou quase uma sentença. Os Estados Unidos não recuaram para administrar. Continuaram acelerando, com Sergiño Dest oferecendo profundidade, Antonee Robinson atacando o corredor oposto, Tyler Adams sustentando a pressão pós-perda e Malik Tillman aparecendo entre linhas para dar continuidade às jogadas.
O segundo gol, aos 31 minutos, teve a assinatura que a noite pedia. Pulisic achou Balogun na área, e o atacante bateu com precisão. Não foi só a finalização. Foi a calma. Foi a postura de quem sabe onde está, o que precisa fazer e qual é o peso de uma estreia de Copa em casa. Pouco antes, Balogun já havia colocado uma bola na rede, anulada por impedimento. Não se abalou. Seguiu atacando o espaço. Seguiu pedindo a bola. Seguiu parecendo maior do que o jogo.
Um time engolido
O Paraguai, atordoado, não conseguia ligar três passes em sequência. Miguel Almirón ficava longe da zona de decisão. Julio Enciso, escalado depois de dias de expectativa sobre sua condição física, quase não recebia em vantagem. Antonio Sanabria virou espectador de um time partido. Gustavo Gómez, símbolo de liderança e dureza, passou o primeiro tempo apagando incêndios em uma defesa que raramente havia sido exposta com tanta facilidade nos últimos anos.
E então veio o terceiro, nos acréscimos do primeiro tempo. De novo Balogun. De novo com autoridade. A bola sobrou na área depois de um erro de abordagem da defesa paraguaia, e o camisa 20 finalizou com força, no alto, como se estivesse em um treino de confiança. Os Estados Unidos foram para o intervalo vencendo por 3 a 0. Mais do que isso: foram para o intervalo com uma atuação de afirmação histórica.
Aquele placar tinha peso próprio. Os Estados Unidos igualavam, ainda antes do descanso, a maior quantidade de gols que já haviam marcado em um jogo de Copa do Mundo. Também colocavam o Paraguai diante de um dado cruel: pela primeira vez em sua trajetória no torneio, a Albirroja sofria três gols no primeiro tempo. Nem mesmo no 7 a 3 sofrido para a França, em 1958, isso havia acontecido; naquele jogo, o intervalo terminou 2 a 2.
Por isso o tamanho da pancada. Não foi apenas um resultado elástico. Foi uma quebra de identidade. O Paraguai voltou à Copa depois de 16 anos apostando na reconstrução promovida por Gustavo Alfaro, em uma defesa que havia sobrevivido a Argentina, Brasil e Uruguai no caminho. Em 45 minutos, essa defesa pareceu comum. Pior: pareceu vulnerável.
Da esperança à desilusão
No segundo tempo, o palmeirense Mauricio entrou e deu ao Paraguai algum sinal de vida. O gol paraguaio, aos 73 minutos, nasceu de uma falha defensiva americana, daquelas que ainda lembram que essa seleção, por mais talentosa, não é produto acabado. O lance serviu como advertência. Em uma Copa do Mundo, até uma aula pode ter uma distração. O problema para o Paraguai é que a reação parou ali.
Os Estados Unidos souberam administrar sem se esconder. Pochettino preservou Pulisic no intervalo, lançou Sebastian Berhalter, depois mexeu com Ricardo Pepi, Tim Weah e Gio Reyna. A equipe perdeu um pouco da eletricidade do primeiro tempo, mas não perdeu o controle emocional. Quando o Paraguai tentou transformar a partida em disputa de contato, os americanos responderam com posse. Quando tentou subir as linhas, encontrou campo para transição. Quando pareceu que o jogo terminaria em 3 a 1, Reyna apareceu para fechar a noite e transformar vitória em goleada.
Maior de todas as vitórias
O 4 a 1 coloca os Estados Unidos em uma prateleira rara dentro de sua própria história. Em margem, iguala as vitórias por 3 a 0 de 1930, contra Bélgica e Paraguai. Em volume ofensivo, se confirmado oficialmente, supera tudo que a seleção masculina americana já havia produzido em uma partida de Copa. Em estreias, também se coloca ao lado da melhor abertura americana no torneio, aquela de 1930 contra a Bélgica, mas com um detalhe simbólico: desta vez, em casa, em uma Copa que os Estados Unidos querem usar para mudar de patamar.

A comparação com 1930 é inevitável. Naquele Mundial, Bert Patenaude marcou três vezes contra o Paraguai e entrou para a história como autor do primeiro hat-trick das Copas. Noventa e seis anos depois, o mesmo adversário voltou a ser testemunha de uma noite americana de ataque. Balogun não fez três, mas fez dois, decidiu o jogo quando ele ainda estava sendo moldado e ofereceu à seleção algo que muda o patamar de qualquer equipe: presença de área confiável.
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A vitória também muda o tom do Grupo D. Antes da bola rolar, havia uma leitura de equilíbrio, com Estados Unidos, Paraguai, Austrália e Turquia separados por nuances. Agora, os americanos largam com saldo, confiança e uma atuação capaz de criar respeito. Não é título. Não é garantia de campanha longa. Não é salvo-conduto para os mata-matas. Mas é um aviso.





