No empate em 1 a 1 entre Bahia e Corinthians, neste domingo, em Salvador, na Fonte Nova, o futebol brasileiro voltou a protagonizar aquilo que tem de mais vergonhoso: o antijogo, potencializado pela “falsa malandragem” dos jogadores, diante da frágil autoridade da média geral dos árbitros. Até quando o futebol brasileiro vai conviver — e aceitar com tanta permissividade — esse teatro das simulações? Até quando jogadores seguirão se atirando ao gramado para fingir cotoveladas, cabeçadas e agressões que nunca existiram, na tentativa de manipular a arbitragem e incendiar partidas?
O mais inacreditável é que esse espetáculo deprimente continue prosperando justamente na era do VAR. Hoje, qualquer encenação pode ser desmascarada em segundos por uma sequência de imagens. Simulou? Cartão. Reincidiu? Expulsão. Simples assim. Ainda assim, os atores insistem no papel, os árbitros entram na pilha, as cabines de vídeo se omitem e quem paga a conta é o futebol. O jogo perde fluidez, transforma-se numa sucessão de interrupções, discussões e empurra-empurra, enquanto a malandragem segue premiada. Foi exatamente esse o roteiro do empate entre Bahia e Corinthians, na tarde deste domingo, em Salvador.

Cenas lamentáveis
Logo no começo do jogo veio o primeiro ato da peça. David Duarte e Rodrigo Garro se estranharam dentro da área, ficaram frente a frente, cabeça com cabeça, e o meia corintiano caiu imediatamente no gramado reclamando de uma suposta cabeçada. As imagens mostraram uma encarada, não uma agressão. Ainda assim, criou-se mais um ambiente de tensão absolutamente desnecessário e o jogo ficou paralisado por mais de três minutos. Garro se contorcia em dores como se tivesse sido atingido por um tiro de raspão.
O segundo ato aconteceu quando Ramon Abatti Abel apitou o fim da etapa inicial. Depois de uma disputa entre Zé Guilherme e Kaio César, Alejo Véliz deu um encontrão no adversário e, logo em seguida, desabou no gramado simulando ter recebido um golpe no rosto. Bastou isso para desencadear um enorme empurra-empurra entre jogadores e integrantes das comissões técnicas, numa confusão que tinha muito mais de teatro do que de futebol.
E Ramon Abatti Abel teve participação decisiva para que esse ambiente prosperasse. Custa acreditar que o mesmo árbitro esteve na última Copa do Mundo. Justamente no Mundial da Fifa, uma das orientações mais claras era coibir simulações e impedir que jogadores manipulassem a arbitragem com encenações. Em Salvador, porém, Abatti Abel fez exatamente o contrário. Aceitou pressões de todos os lados, permitiu que o teatro contaminasse a partida e conduziu o jogo com uma permissividade incompatível com o padrão internacional. Árbitro de perfil para-raios, daqueles que parecem atrair confusões por onde passam, foi frouxo nas decisões e ajudou diretamente a transformar uma boa partida num festival de interrupções. Sua atuação em nada lembrou o padrão médio das arbitragens visto na Copa do Mundo.
Corinthians na frente
Quando a bola efetivamente rolou, o Bahia foi muito superior. O Corinthians encontrou o gol cedo, aos sete minutos, num verdadeiro chutaço de Angileri de fora da área. Foi praticamente sua única grande produção ofensiva durante toda a tarde. A partir dali, o time paulista baixou as linhas, passou a correr atrás da bola e assistiu ao Bahia assumir completamente o controle das ações.
O time de Rogério Ceni terminou o primeiro tempo com 65% de posse de bola, finalizou seis vezes contra apenas duas do Corinthians, teve dois gols anulados e finalmente encontrou o empate aos 48 minutos. Rodrigo Nestor cobrou escanteio e David Duarte apareceu para cabecear às redes, fazendo justiça ao volume ofensivo da equipe baiana. A etapa final repetiu o mesmo roteiro. O Bahia continuou empurrando o Corinthians para perto da própria área, dominando territorialmente a partida e rondando constantemente o gol de Hugo Souza em busca da virada. Faltou apenas transformar a superioridade em eficiência nas finalizações.
Ponto valioso
O Corinthians, por sua vez, praticamente abdicou de atacar. Sofreu para manter a posse de bola, encontrou enorme dificuldade para construir jogadas e sequer conseguiu finalizar com perigo contra Ronaldo durante todo o segundo tempo. Dentro desse contexto, o empate não pode ser considerado um resultado ruim para os corintianos. Muito pelo contrário. Poucos visitantes conseguem sair da Arena Fonte Nova sem sofrer diante de um Bahia que se tornou extremamente forte em casa. Pelo cenário da partida, o ponto conquistado acaba tendo valor.

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Mas a lembrança mais forte da tarde não será o golaço de Angileri, nem a pressão exercida pelo Bahia, tampouco o resultado final. Será, mais uma vez, o velho teatro das falsas agressões. Um vício que insiste em sobreviver no futebol brasileiro graças à conivência de quem deveria combatê-lo. Se a Fifa já mostrou no Mundial que é possível reprimir esse tipo de antijogo, por que aqui continua tudo igual? Enquanto árbitros e VAR seguirem tratando simulações como parte natural do espetáculo, o futebol brasileiro continuará premiando a malandragem e punindo quem quer apenas jogar bola. E isso já passou, faz muito tempo, de qualquer limite aceitável. A CBF deve uma resposta ao torcedor.





