A derrota por 2 a 0 para o São Paulo no sábado à noite não foi só mais um tropeço. Foi o estopim de algo muito maior. No Morumbis, o Corinthians não perdeu apenas um clássico: perdeu o último véu que ainda separava o colapso administrativo da crise no futebol. O que se viu ali foi um time entregue, sem energia, sem comando e sem alma. Um time que, mesmo após um mês inteiro de treinos e descanso durante a paralisação do calendário, conseguiu voltar pior. Muito pior!

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Até então, havia quem sustentasse a ilusão de que o ambiente do futebol profissional ainda estava blindado do caos político que reina no clube. Mas a realidade atropelou qualquer narrativa: a instabilidade agora já mora no vestiário. E não há mais como varrer a sujeira para debaixo do tapete.

Memphis ficou no vestiário após o intervalo do jogo com o São Paulo e decidiu ir embora mais cedo do estádio / Corinthians

A atuação foi covarde. O Corinthians jogou um clássico com a mesma intensidade de uma pelada de fim de ano, diante de um São Paulo que lutou pela bola como quem luta por um prato de comida. A torcida — humilhada e descrente — cansou de ser feita de palhaça. E a sensação de que o clube está prestes a colapsar não é mais exagero: é o cenário mais provável, caso nenhuma atitude urgente seja tomada.

Dorival parece perdido

Dorival Júnior, até pouco tempo visto como figura estável e ponderada, parece cada vez mais perdido. Seu trabalho não só estagnou como regrediu — e a substituição de Memphis Depay no intervalo foi um ponto fora de qualquer curva aceitável. Tirar o principal nome do elenco, num clássico, perdendo por 2 a 0, e colocar Gui Negão — um garoto recém-promovido da base — não é decisão técnica. É delírio. Difícil acreditar que o treinador estivesse mesmo convencido de que essa alteração pudesse mudar o cenário do jogo. Com todo o respeito ao menino, não há qualquer lógica nessa troca.

Depay sentiu o golpe e não voltou sequer ao banco no segundo tempo. Sumiu. E desde então reina o silêncio. Ao justificar a troca, numa coletiva morna, Dorival alegou “deficiência técnica e falta de energia”. Mas, convenhamos, isso não convence nem os mais ingênuos. Tudo indica um racha. E se não foi isso, que alguém venha a público explicar o que de fato aconteceu lá dentro naqueles 15 minutos. Porque um clube do tamanho do Corinthians não pode aceitar esse tipo de episódio sem explicações, como se fosse normal.

Dorival Júnior teve tempo para arrumar o time na paralisação do calendário e ainda não deu certo / Corinthians

Se houve atrito entre o técnico e o jogador, ou entre Memphis e o elenco, que se diga. Se o holandês não quer mais jogar aqui, pegue sua mala e vá. Mas se ele quiser ficar, que se comprometa. Mas o que não pode continuar é esse teatro mudo e constrangedor, em que ninguém fala nada e o único a sofrer é o torcedor.

A diretoria interina, acuada, disse dois dias após o jogo que Dorival está “prestigiado” — o que, no futebol brasileiro, significa exatamente nada. O treinador está na berlinda e entra agora numa contagem regressiva: Cruzeiro, Botafogo e Palmeiras. Três jogos que decidirão seu futuro. E no caso de uma derrota para o arquirrival dificilmente haverá clima para sua permanência.

Clube quer Voyvoda

Há, inclusive, um fator externo que pressiona ainda mais: Vojvoda, sonho antigo da torcida, está livre no mercado após deixar o Fortaleza. O nome já circula com força pelos corredores do Parque São Jorge.

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Mas talvez o problema nem chegue até o Dérbi. Porque o Corinthians não vive só uma crise técnica. Vive um colapso moral, um vácuo de liderança, um vazio de identidade. O elenco não reage, o treinador não inspira, a diretoria não comanda. E o torcedor sangra — sozinho, traído, abandonado por um clube que já não se parece consigo mesmo.

Se nada for feito agora — agora — o Corinthians vai despencar. E talvez não haja mais tempo para consertar nada. Esperar o clássico com o Palmeiras pode ser o erro final. Porque quando se tenta trancar a porta depois de arrombada, às vezes só resta o silêncio das ruínas daquilo que já foi o “campeão dos campeões”.

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