A Fifa anunciou que pretende implementar já na próxima Copa do Mundo um pacote de medidas para aumentar o tempo efetivo de bola rolando e coibir comportamentos que atrasam o reinício das partidas a cada paralisação. A iniciativa é, em essência, um reconhecimento de um problema antigo: o futebol foi perdendo minutos preciosos de jogo para a prática daquilo que, no Brasil, chamamos sem rodeios de “cera”. Algo que existe desde que Charles Miller nos apresentou a primeira bola de futebol. Coisa pra mais de 100 anos…
Há, no entanto, uma curiosidade nesse movimento. A entidade máxima do futebol parece empenhada em criar mecanismos para regulamentar algo que, na prática, já está previsto na própria regra. O chamado antijogo — toda ação deliberada para retardar a partida — sempre esteve tipificado no código do futebol. Em tese, deveria ser punido com rigor pelos árbitros. Na prática, raramente é.

O caminho mais lógico, inclusive, nem exigiria necessariamente um novo pacote de medidas. Bastaria aplicar a regra existente com mais energia e transparência. Sempre que um jogador se utiliza de artifícios para ganhar tempo, o árbitro poderia simplesmente interromper o cronômetro do jogo corrido, sinalizar que aquele período está sendo descontado e garantir, ao final dos 90 minutos, que todo o tempo perdido será devidamente acrescido. Substituições, atendimento médico, revisões do VAR, pausas para hidratação — tudo isso seria naturalmente somado a essa conta.
Na letra da regra
A lei prevê. O problema é que, no campo, o que vemos com frequência são acréscimos protocolares, quase automáticos, de três a cinco minutos. Números que raramente correspondem ao tempo real consumido pelas interrupções. O resultado é conhecido: partidas que oficialmente duram 90 minutos, mas que entregam bem menos tempo de futebol de verdade.

Hoje, estima-se que muitos jogos tenham menos de 70 minutos de bola efetivamente rolando. É um dado que ajuda a explicar a inquietação recente da Fifa. E, convenhamos, os culpados não são apenas os árbitros. Em ligas como a brasileira, os próprios jogadores colaboram ativamente para o problema — seja porque sabem explorar a permissividade da arbitragem, seja porque perceberam que a pressão coletiva e a reclamação constante, se não surtem efeito, ao menos quase sempre ficam impunes.
Problema de longa data
Não é a primeira vez que o futebol discute soluções estruturais para isso. No passado, chegou a ganhar força a ideia de adotar um modelo semelhante ao do basquete ou do futsal, modalidades em que o cronômetro é parado sempre que a bola não está em jogo. Nesse sistema, o tempo oficial só corre com a bola em movimento. Seria, em teoria, a forma mais justa de garantir que a partida entregue exatamente o que promete.
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A proposta, porém, esbarrou em interesses comerciais — especialmente das emissoras de televisão. Um jogo com hora para começar, mas sem previsão clara para terminar, bagunçaria a grade de programação e criaria um problema para a lógica de transmissão que sustenta boa parte do negócio do futebol moderno.
Novas tentativas e abordagens
Se o ideal parece inviável, resta então avançar no que é possível. E nesse sentido a intenção da Fifa merece, sim, ser festejada. Estabelecer limites mais claros para ações que picotam o jogo — como a demora em cobranças de laterais, escanteios e substituições — pode ajudar a recuperar parte do tempo perdido.
Outro ponto que precisa entrar nessa discussão é o excesso de tempo gasto nas cobranças de falta. O atraso começa no momento da marcação, quase sempre cercada por protestos, segue na formação da barreira — que, vale lembrar, não está sequer prevista formalmente como um procedimento obrigatório na regra — e termina em uma cobrança que muitas vezes acontece mais de um minuto depois do apito inicial. Em uma partida com 30 ou 40 faltas, o impacto é enorme no cômputo do tempo de bola rolando.
A cera é condenável
A cera é condenável sob qualquer perspectiva. Não puni-la, no fundo, é legitimá-la. Por isso, a iniciativa da Fifa deve ser vista como um passo na direção correta — ainda que tardio. Resta saber se agora será para valer. Porque o futebol, especialmente no Brasil, convive há anos com partidas interrompidas o tempo todo, jogadores que contestam praticamente todas as decisões e rodinhas constantes em torno do árbitro. Minutos que desaparecem diante dos olhos de todos e acabam tratados com naturalidade.





