O Flamengo não precisou realizar uma exibição de gala. Na altitude de 2.850 metros de Quito, no Equador, diante de um Independiente del Valle, que atravessa a melhor temporada de sua história, o Rubro-Negro fez algo talvez mais importante em uma eliminatória de Libertadores: soube sofrer, entendeu a partida e foi letal quando teve a oportunidade. A vitória por 2 a 0, com gols de Bruno Henrique e Léo Pereira no segundo tempo, deixa o time de Leonardo Jardim com um pé na semifinal e permite voltar ao Rio de Janeiro com mais do que uma excelente vantagem. Carrega uma demonstração de força.
No Maracanã, na próxima quinta-feira, o Flamengo pode até perder por um gol de diferença e ainda avançará. Uma derrota por dois levará a decisão para os pênaltis. O cenário é confortável, porque foi construído em um território complicado para os cariocas. E contra um adversário que não vivia um momento qualquer. O Del Valle chegou ao confronto com 32 vitórias em 40 partidas na temporada, 82,5% de aproveitamento, liderança do Campeonato Equatoriano com 22 pontos de frente e uma sequência de cinco triunfos como mandante na Libertadores. Pelos números, é o melhor Independiente del Valle de sua história. Por isso, o 2 a 0 tem peso maior.

Flamengo acerta na estratégia
O Flamengo não entrou em Quito para disputar beleza. O primeiro tempo deixou isso evidente. A altitude diminuiu o ritmo dos brasileiros, acelerou a bola e permitiu ao Del Valle assumir mais a iniciativa. Houve momentos em que a equipe de Jardim precisou recuar, defender a própria área e aceitar que aquela seria uma partida diferente das que costuma controlar pela qualidade técnica. Rossi, Léo Ortiz, Léo Pereira e um meio-campo experiente atravessaram o período mais desconfortável sem transformar a superioridade territorial equatoriana em desespero. O Flamengo quase não ameaçou antes do intervalo, mas conseguiu aquilo que precisava: permanecer vivo, inteiro e com condições de atacar uma segunda etapa em que o desgaste também atingiria o adversário.
Foi uma atuação de maturidade antes de se tornar uma atuação de imposição. E então apareceu a diferença individual. Bruno Henrique abriu o placar aos 15 minutos do segundo tempo. Léo Pereira ampliou aos 29. Em apenas 14 minutos, uma noite que parecia desenhada para a resistência virou uma vitória enorme para a configuração das quartas de final. O Del Valle, acostumado a transformar Quito em arma, precisou correr para diminuir o prejuízo quando a altitude começava também a cobrar o preço dos donos da casa.
Banco de reservas de luxo
A imagem mais simbólica do tamanho atual do Flamengo estivesse fora das quatro linhas. Bastava olhar para o banco. Leonardo Jardim se deu ao luxo de iniciar a partida sem Pedro, convocado por Carlo Ancelotti nesta semana para a primeira lista da Seleção Brasileira no ciclo rumo à Copa de 2030. Lucas Paquetá, integrante do Brasil na última Copa do Mundo, também ficou como alternativa. Assim como Gonzalo Plata, Luiz Araújo e Varela, jogadores com passagem recente pela equipe titular.
O diferencial está em possuir alternativas capazes de mudar as características da equipe sem necessariamente diminuir seu nível técnico. Em Libertadores, isso vale ouro. Uma suspensão, uma lesão, o desgaste do calendário ou simplesmente uma necessidade tática podem decidir uma eliminatória. Jardim tem condições de trocar um atacante de profundidade por um centroavante de área, aumentar a capacidade de criação no meio, buscar velocidade pelas pontas ou mexer na defesa sem desmontar completamente sua estrutura.
Muito repertório
É esse repertório que começa a separar o Flamengo dos concorrentes. Isso não significa entregar a taça. A Libertadores não permite tamanho atalho. Um jogo ruim continua sendo suficiente para derrubar qualquer favorito. Mas existe uma grande diferença entre apontar um campeão antes da hora e reconhecer qual equipe apresenta, neste momento, a maior quantidade de recursos para chegar até o fim.
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O Flamengo está nessa primeira prateleira. A busca pelo título ganha também uma dimensão histórica. Campeão em 1981, 2019, 2022 e 2025, o clube tornou-se no ano passado o primeiro tetracampeão brasileiro da Libertadores. Palmeiras, São Paulo, Santos e Grêmio aparecem atrás, todos com três conquistas. Se levantar a taça em 2026, abrirá duas de vantagem sobre qualquer outro clube do país. Seria a transformação definitiva de uma geração vencedora em uma hegemonia continental particular dentro do próprio futebol brasileiro.

O contexto amplia ainda mais essa possibilidade. Desde 2019, somente brasileiros conquistaram a Libertadores. São sete títulos consecutivos, três deles do próprio Flamengo. Brasil e Argentina chegaram a esta edição empatados com 25 conquistas cada, o que significa que um novo campeão brasileiro colocará o país isoladamente na liderança histórica. Confirmando a classificação diante do Del Valle, o Flamengo enfrentará Corinthians ou Estudiantes na semifinal. Na outra metade do chaveamento, Fluminense e Palmeiras também começaram as quartas em vantagem contra Platense e LDU, respectivamente. Portanto, existe a possibilidade inédita de a Libertadores reunir quatro brasileiros entre os semifinalistas.





