Gianni Infantino corre o risco de perder a eleição presidencial da Fifa marcada para março de 2027. Um cenário que parecia praticamente impossível começou a ganhar corpo depois do fracasso de seu plano de entregar parte dos negócios da Copa do Mundo a investidores privados. Federações que haviam declarado apoio à sua candidatura começaram a soltar a mão do dirigente, enquanto a Uefa procura construir uma oposição capaz de encerrar uma administração iniciada há mais de dez anos.

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A primeira ruptura pública veio do País de Gales, que retirou formalmente o apoio à candidatura de Infantino para o mandato de 2027 a 2031, o que seria o seu quarto período à frente da entidade. A Federação Inglesa, com todo o seu peso na Europa, tomou o mesmo caminho. A decisão é especialmente simbólica porque, até meados de julho, mais de 200 das 211 associações filiadas à Fifa haviam enviado cartas respaldando a permanência do suíço no cargo por mais quatro anos. A reeleição, naquele momento, parecia uma simples cerimônia protocolar. Já não é mais.

Gianni Infantino, presidente da Fifa, não é mais unanimidade para as eleições de março de 2027 / Fifa

O ambiente mudou por causa do projeto chamado Fifa Forward Enterprise. Infantino pretendia criar uma empresa para administrar comercialmente competições como as Copas do Mundo masculina e feminina e o Mundial de Clubes. Até 20% dessa nova companhia seria vendido a investidores privados, numa operação que poderia levantar cerca de US$ 4,2 bilhões ao cofres da entidade.

Fundos de investimentos

Na prática, fundos de investimento passariam a ter participação nas receitas futuras dos principais torneios do futebol mundial. Ocorre que o problema não estava apenas no conteúdo da proposta, mas na maneira como ela foi conduzida. Uefa, Concacaf, federações nacionais e até funcionários graduados da própria Fifa afirmaram que não foram devidamente consultados.

Kevin Lamour, diretor de operações da Fifa, acusou a direção de esconder informações dos funcionários e classificou o negócio como um projeto pessoal de Infantino. Carlos Cordeiro, um de seus principais assessores, deixou o cargo em protesto, de acordo com a Agência AP News. A pressão foi tão grande que Infantino precisou abandonar o plano na última sexta-feira, com comunicado oficial. Mas o recuo não resolveu a crise. Pelo contrário: revelou que o presidente já não controla com a mesma facilidade todas as estruturas da Fifa.

Aleksander Ceferin, presidente da Uefa: entidade procura um candidato para concorrer com Infantino / Uefa

A Uefa viu uma brecha para “derrubar” Infantino e chegou a discutir um boicote às competições da Fifa. Depois da retirada da proposta, exigiu a preservação de documentos para uma possível ação jurídica. Ou seja: o caso não acabou com a recuada de Infantino. A Concacaf também demonstrou preocupação com a falta de transparência e de participação das confederações nas decisões. Por ora, uma coisa é certa: Infantino não é mais unanimidade. Sua gestão é questionada e ele não é mais absoluto no comando.

À procura de um nome

A ofensiva europeia agora tem dois objetivos. O primeiro é convencer outras federações a retirar as cartas de apoio entregues a Infantino para a eleição de março e antes do referido episódio. O segundo é encontrar um candidato capaz de transformar a insatisfação em votos. Os interessados precisam ser apresentados até 18 de novembro de 2026. Até lá, as associações podem retirar o respaldo ao atual presidente e transferi-lo para outro concorrente.

Infantino ainda conserva uma base poderosa. A Confederação Africana, a Conmebol, que inclui a CBF, e parte importante das federações asiáticas permanecem ao seu lado. Portugal, Espanha e Marrocos estão em saia justa porque eles sediarão a próxima Copa do Mundo. O principal instrumento político de Infantino continua sendo o dinheiro distribuído pela Fifa às associações, sobretudo às menores e mais dependentes dos programas de desenvolvimento do futebol. O projeto rejeitado prometia aumentar de US$ 10 milhões para US$ 40 milhões os repasses destinados a cada federação no próximo ciclo, de acordo com o The Guardian.

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Mas já não se pode dizer que Infantino vencerá por aclamação, como ocorreu em 2023. Para derrotá-lo, a Uefa precisará atravessar as fronteiras da Europa e conquistar votos na Ásia, Concacaf e até na África. Ainda não existe um adversário confirmado, mas a oposição ganhou algo que não possuía até agora: um motivo político capaz de reunir federações muito diferentes contra o mesmo presidente.

A eleição de março de 2027 no Marrocos deixou, portanto, de ser uma formalidade. Infantino continua favorito, mas perdeu a aparência de invencível. E isso aconteceu dias depois de ele comandar uma Copa do Mundo nos Estados Unidos, Canadá e México. Ao tentar vender parte do futuro comercial das competições da Fifa, o presidente pode ter colocado em risco o próprio futuro no comando da entidade.

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