Na Copa do Mundo dos recordes, das multidões e do novo formato, a história de dois goleiros tem um capítulo especial: Unai Simón, goleiro da Espanha, e o mexicano Raúl Rangel, o ‘Tala’. O primeiro tornou-se o novo recordista de minutos sem sofrer gols em Copas do Mundo ao somar sua sequência atual com a reta final do Mundial do Catar, com 612 minutos de invencibilidade e superou a marca histórica de Walter Zenga, que havia estabelecido 517 minutos pela Itália no Mundial de 1990. E o detalhe que mantém a disputa viva: o titular da Fúria e deve aumentar esses números no confronto contra Portugal na próxima terça-feira.

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Nesse cenário em movimento, aparece o goleiro mexicano Raúl Rangel, que está em sua primeira Copa do Mundo e segue escrevendo sua própria história — não mais perseguindo apenas um número isolado, mas também uma marca pessoal ambiciosa: terminar uma Copa do Mundo sem sofrer gols. Até aqui, ele mantém essa possibilidade viva, sustentando uma sequência perfeita que o coloca entre os protagonistas do torneio.

Goleiro Raúl Rangel
Da desconfiança à solidez no gol, Raúl Rangel passa os quatro primeiros jogos da Copa sem ser vazado / Miseleccionmx

Assim como Unai Simón, o goleiro mexicano de 26 anos chega às oitavas de final sem sofrer gols. São quatro partidas, 360 minutos de invencibilidade e uma campanha que já colocou o México entre as defesas mais sólidas do torneio. Mas agora, mais do que números, o que se desenha é um confronto simbólico: Rangel e os seus companheiros encaram Harry Kane, o maior artilheiro da história da seleção inglesa e também o principal goleador da Inglaterra em Copas do Mundo. O duelo acontece, neste domingo, às 21h (horário de Brasília), no Estádio Azteca, na capital mexicana.

Kane alcançou esse status ao superar Garry Lineker, chegando a 11 gols em Copas do Mundo — marca construída ao longo de 17 partidas disputadas nos torneios. Além disso, ele também é o maior artilheiro da história da seleção inglesa, com 62 gols marcados em 91 partidas oficiais até o momento, consolidando-se como a principal referência ofensiva do país em todos os tempos.

É o tipo de duelo que define trajetórias. De um lado, um goleiro que constrói sua reputação jogo a jogo, sustentado por concentração e consistência — e que agora persegue a raríssima façanha de atravessar um Mundial inteiro sem ser vazado. Do outro, um atacante que transformou gols em rotina no maior palco do futebol. Não se trata apenas de avançar às quartas de final — trata-se de medir forças entre extremos da mesma narrativa: quem evita o gol e quem vive dele.

O que torna essa história especial não é apenas o que acontece dentro de campo. José Raúl Rangel Aguilar nasceu em 25 de fevereiro de 2000, em Zapotlán el Grande, no estado de Jalisco. Tem 1,90 m e pertence ao Guadalajara, o Chivas, clube que o formou desde as categorias de base até o time principal. Antes de vestir a camisa da seleção, teve uma trajetória marcada por trabalho fora do futebol: passou por padaria, açougue e fábrica de tijolos.

Foi uma formação baseada na necessidade, não no privilégio. A escolha pelo gol veio cedo, influenciada pelo pai, que atuava na posição em ligas locais. Rangel ficou, se adaptou e passou a buscar referências próximas. Admirava Oswaldo Sánchez pela liderança e personalidade, e Alfredo Talavera pelo método e disciplina. O apelido “Tala”, inclusive, nasceu da semelhança física com Talavera — uma conexão que se transformou também em relação de apoio e aconselhamento ao longo da carreira.

A ascensão não foi linear. Estreou na Liga MX em 2023, sofreu uma fratura no rosto pouco depois, voltou, ganhou espaço e chegou à seleção em meio a dúvidas. Sua primeira partida pelo México terminou em derrota por 4 a 0 para o Uruguai. Ainda assim, cresceu sob o comando de Javier Aguirre e assumiu a titularidade no Mundial, deixando Guillermo Ochoa no banco — uma decisão que gerou muitas dúvidas entre os torcedores.

Goleiros Raúl Rangel e Ochoa
Passado e futuro se encontram entre os goleiros Raúl Rangel e Guillermo Ochoa na festa mexicana / Miseleccionmx

Até aqui, respondeu com maturidade. Teve momentos de insegurança, como na estreia contra a África do Sul, mas evoluiu rapidamente. Contra a Coreia do Sul, fez defesa decisiva em cabeçada de Cho Gue-sung — lance que ele próprio disse mal lembrar, descrevendo apenas a sensação de ter ficado com a bola. É o instinto puro da posição.

Agora, diante da Inglaterra, o desafio ganha outra dimensão. Não é apenas mais um jogo. É o encontro entre um goleiro em ascensão e um dos maiores finalizadores da história recente das Copas. Kane representa o teste máximo para qualquer defesa — e, para Rangel, a oportunidade de transformar consistência em afirmação definitiva e manter viva a busca por uma Copa perfeita.

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Na luta pelo recorde individual ou não, o que Rangel e os seus companheiros querem é fazer uma festa inesquecível com os seus torcedores. Se o México avançar diante da Inglaterra, igualará sua melhor campanha em Copas do Mundo desde 1986, quando chegou às quartas de final como anfitrião. Ou seja, não seria a melhor colocação da história — já que o país nunca ultrapassou essa fase —, mas representaria o retorno ao seu ponto mais alto no torneio.

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