O futebol, em sua essência, também possui seus ritos de passagem. Para a seleção italiana, a partida pra lá de tensa em Bérgamo pode ter sido um desses ritos de despertar. Após 12 anos de uma melancolia que parecia incurável, a vitória da Itália sobre a Irlanda do Norte por 2 a 0 não foi apenas um passo obrigatório para tentar voltar à Copa do Mundo, mas um grito de sobrevivência em toda a “Bota”, de autoafirmação de uma das camisas mais pesadas do futebol. Os italianos se lembraram que são tetracampeões mundiais.
Sob o comando visceral de Gennaro Gattuso, a Azzurra deixou de lado o fantasma das duas últimas repescagens para se agarrar ao desejo de retomar sua vaga no futebol e na marra. Há ainda um passo importantíssimo para isso acontecer: a final do seu grupo da repescagem na próxima terça-feira, contra a Bósnia e Herzegovina, que eliminou País de Gales nos pênaltis. O duelo será fora de casa, em mando de campo definido por sorteio no chaveamento das equipes.

O enredo foi escrito por dois personagens que simbolizam a resiliência deste ciclo. Sandro Tonali, com a precisão de quem sabe o peso da sua camisa, abriu o placar e trouxe a calma necessária ao Estádio Atleti Azzurri d’Italia que já pulsava de ansiedade. O relógio batia 10 minutos do 2º tempo quando o meio-campista acertou o chute da entrada da área. Mais tarde um pouco, aos 34, Moise Kean selou o destino da partida com um chute cruzado. Era, enfim, o gol que dava tranquilidade a um país inteiro.
O efeito Gattuso
Dentro de campo, com toda a tensão que o jogo pedia, o que se viu foi uma equipe italiana que incorporou a intensidade de seu treinador. Gattuso vive cada lance como se fosse o último – e isso é assim desde o seu tempo de jogador –, e assim conseguiu injetar nos italianos o entendimento de que a técnica sem a alma é vazia em um jogo que vale a vida. E se valia a vida, era preciso dar a vida em campo. Era mais ou menos essa a postura de uma equipe que só pensava no resultado. Não houve espetáculo. Houve entrega. E depois alívio.

Bérgamo serviu de palco para uma Itália que soube manter os nervos no lugar enquanto o gol não saía. Foi, inclusive, a pedido do treinador que a Azzurra “dispensou” San Siro, em Milão, para se hospedar em Bérgamo. Segundo ele, o ambiente de incentivo ajudaria. Estava certo. De fato, foi assim o comportamento da torcida do início ao fim. A Itália não apenas jogou, ela lutou contra o peso de 2018 e 2022 que parecia amarrado às chuteiras de seus atletas nos últimos anos.
Ainda falta uma batalha
O passaporte italiano ainda carece do carimbo definitivo. A vitória sobre a Irlanda do Norte foi a semifinal de uma vida, o penúltimo fôlego de quem luta para sair do “exílio” nas Copas do Mundo e reencontrar seu lugar de direito entre os gigantes, como tetracampeã que é.
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A jornada de retomada só terminará mesmo com o apito final na próxima terça-feira, no duelo contra a Bósnia. Até lá, a Azzurra habita o perigoso território entre a esperança renovada e a tensão de quem já conheceu o amargo sabor de morrer na praia. A classificação foi o penúltimo degrau de uma escadaria que parece infinita nos últimos anos. Mas ainda falta um passo e dos grandes.





