Houston – Curiosamente, às vésperas do confronto entre Brasil e Japão, quem talvez tenha traduzido melhor o espírito do jogo tenha sido o técnico japonês Hajime Moriyasu. Na coletiva pré-jogo concedida neste domingo, em nenhum momento ele desrespeitou o favoritismo brasileiro. Pelo contrário. Reconheceu a superioridade histórica do adversário, lembrou que o Brasil está entre as principais seleções do ranking mundial da Fifa (quinto lugar) e chamou a seleção canarinho de legítima pentacampeã. Mas fez questão de acrescentar uma frase que merece atenção. “Temos um desafio que é vencê-los. E não vamos mudar nossa identidade.”

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Talvez esteja aí a maior conquista do futebol japonês. Não é exatamente acreditar que pode eliminar o Brasil. É acreditar que pode fazê-lo sem abrir mão daquilo que construiu durante décadas. Ironicamente, com a ajuda do futebol brasileiro e de um personagem reverenciado nos dois países: Zico. Durante muito tempo, o Japão era tratado quase como uma piada futebolística. No Brasil, quando alguém queria ironizar um time limitado, dizia que aquela equipe era ‘tudo japonês’. Era uma expressão carregada de preconceito esportivo, reflexo de uma época em que o futebol nipônico praticamente não existia no cenário internacional.

Japão Treinador japonês, Hajime Moriyasu
Com trabalho consolidado, técnico Hajime Moriyasu diz que a seleção japonesa vai manter a identidade / Reprodução

Japão com tempero brasileiro

Mas o Japão fez aquilo que sociedades disciplinadas costumam fazer diante de suas limitações: transformou fraquezas em planejamento. Criou uma liga profissional sólida, investiu nas categorias de base, organizou centros de treinamento, profissionalizou sua estrutura e estabeleceu uma linha de trabalho que sobreviveu aos resultados imediatos. Nesse processo, existe uma participação brasileira que jamais poderá ser esquecida.

É impossível contar a história da evolução do futebol japonês sem lembrar do jogador do Flamengo, um dos grandes responsáveis por levar credibilidade ao nascimento da J-League. Como fechar os olhos para a história de Ruy Ramos nos clubes japoneses desde o fim dos anos 1970 e, já naturalizado, também na seleção japonesa a partir da virada para os anos 1990? Como fazer isso sem recordar treinadores, como Nelsinho Baptista, que ajudaram a implantar métodos de formação e amadurecimento esportivo, sem reconhecer o trabalho silencioso de preparadores físicos, médicos, fisioterapeutas e profissionais brasileiros que atravessaram o mundo para compartilhar conhecimento quando o Japão ainda engatinhava na modalidade?

Identidade própria

O curioso é que o aluno aprendeu tão bem que desenvolveu uma personalidade própria. Hoje, o futebol japonês já não copia ninguém. Tem sua própria identidade. A disciplina milenar, a organização coletiva, o respeito aos processos, a capacidade de executar funções táticas com precisão quase cirúrgica e a impressionante força mental transformaram-se em características facilmente reconhecíveis de sua seleção.

Moriyasu chama isso de identidade. E talvez seja isso que explique sua confiança nesta partida decisiva. O Japão não acredita que vencerá porque possui mais estrelas do que o Brasil. Acredita porque confia no próprio modelo. O amistoso vencido pelos japoneses por 3 a 2 no último ano serviu como combustível emocional. O longo ciclo do treinador — perto de completar oito anos no comando da seleção — fortalece a estabilidade do projeto. E as inúmeras zebras produzidas por esta Copa do Mundo alimentam a sensação de que qualquer roteiro é possível.

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É quase um drama esportivo com final feliz: o azarão que desafia um gigante acreditando que chegou a sua hora. Naturalmente, o favoritismo continua sendo brasileiro. A história pesa. A qualidade individual fala mais alto. O retrospecto em jogos oficiais continua amplamente favorável ao Brasil. Mas seria um erro imaginar que o Japão chega apenas para participar da competição.

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