Leila Pereira não saiu da sede da CBF nesta terça-feira apenas como a representante do Palmeiras no sorteio das oitavas de final da Copa do Brasil. A dirigente usou os microfones para, mais uma vez, exercer o seu papel de fiadora pública de Abel Ferreira. Em meio à pressão de parte da torcida, às cobranças recentes sobre o desempenho da equipe e ao ruído produzido por uma derrota na Libertadores, a presidente bancou a permanência do treinador em uma declaração de comando.

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O Palmeiras enfrentará o Fortaleza nas oitavas da Copa do Brasil, como mandante no duelo de ida e a decisão fora de casa. Os jogos estão previstos para ocorrer na primeira semana de agosto, com ida nos dias 1º e 2 e volta nos dias 5 e 6, ainda dependendo da confirmação da CBF. Mas, no caso palmeirense, o sorteio acabou abrindo espaço para outro assunto: até onde vai a blindagem de Abel dentro do clube?

Leila Pereira (à esq.) conversa com o técnico Abel Fereira, que está à sua direita, com boné e camisa verde
Leila Pereira banca a permanência do técnico Abel Ferreira até o fim do seu mandato, em dezembro de 2027 / Palmeiras

A resposta de Leila foi direta. A presidente afirmou que a decisão sobre a permanência do técnico passa por ela, não pela arquibancada, pelas redes sociais ou pela política interna. “Quem tem de decidir se o treinador fica ou sai é a presidente, no caso sou eu”, disse. A frase é mais do que uma defesa circunstancial. É o exercício diário dela em colocar a hierarquia do futebol do Palmeiras em seu devido lugar, pelo menos sob a ótica da mandatária.

Leila Pereira não se abala

Leila também rejeitou a ideia de que um resultado isolado, ou mesmo uma eventual eliminação na Libertadores, nesta quinta-feira, diante do Junior Barranquilla, em casa, na última rodada da fase de grupos seja suficiente para mudar a avaliação sobre o trabalho do treinador. A cartola que mantém confiança em Abel e no diretor de futebol Anderson Barros, e que o desejo dela é tê-los no clube até o fim de 2027, quando se encerra seu mandato.

A fala tem peso porque vem num momento em que Abel já não é apenas o técnico mais vitorioso da história recente do Palmeiras. Ele virou o principal eixo de continuidade de uma era. Por isso, quando Leila afirma que quer o treinador até dezembro de 2027, não está apenas projetando o futuro da comissão técnica. Está amarrando o ciclo Abel ao seu próprio ciclo político no clube.

A presidente recorreu ao retrospecto, mas tentou não se esconder nele. “O Abel é o maior técnico da história do Palmeiras, é o mais vitorioso”, afirmou. Em seguida, fez questão de acrescentar: “Eu não vivo de passado, eu vivo de presente”. A construção é relevante porque responde a uma crítica recorrente: a de que Abel estaria protegido apenas pelos títulos acumulados desde 2020. Leila, ao contrário, procurou sustentar a blindagem no trabalho diário e na convicção de que o elenco ainda tem “potencial de conquistar vários títulos”, em entrevista à GeTV.

Nem o marido opina

Na sequência, a presidente foi ainda mais enfática ao tratar da pressão externa. Disse que não se orienta por opiniões de torcedores, redes sociais ou mesmo de pessoas próximas. Em tom bem-humorado, afirmou que não aceita nem interferência doméstica sobre o Palmeiras: “Como tenho liberdade com ele, eu mando calar a boca”, disse, referindo-se ao marido, José Roberto Lamacchia, conselheiro e torcedor do clube. A frase viraliza fácil, mas a parte mais importante da declaração veio depois: Leila afirmou que decide com quem está no dia a dia da Academia de Futebol.

Esse é o núcleo da mensagem. Leila quer passar a ideia de que o Palmeiras não será administrado pelo termômetro da semana. Nem por protesto, nem por hashtag, nem por oscilação de resultado. “O Abel sabe que tem todo o respaldo da presidente”, afirmou. Depois, completou: “Quem contrata e demite o treinador é a presidente”.

Com a vitória contra o Flamengo, o Palmeiras de Abel Ferreira mostra mais uma vez como esfriar a pressão / Palmeiras

Acordo verbal com técnico

Há, porém, uma nuance importante. A blindagem é forte politicamente, mas não é absoluta contratualmente. A própria Leila Pereira lembrou que o contrato de Abel não tem multa rescisória para nenhuma das partes. Ou seja: a presidente pode sustentar o treinador enquanto tiver convicção no trabalho, mas a permanência também depende do desejo do próprio Abel de continuar. “Ele vai ficar conosco até quando ele achar que está feliz”, disse Leila. 

É aí que a declaração ganha uma camada mais complexa. Ao bancar Abel até 2027, Leila reduz a pressão imediata sobre o técnico, mas aumenta a responsabilidade sobre si mesma. Se o Palmeiras responder em campo, a presidente terá confirmado a virtude da estabilidade. Se o time tropeçar em momentos decisivos, a cobrança não será apenas sobre o treinador: recairá também sobre quem assumiu publicamente que a decisão de mantê-lo é sua.

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A Copa do Brasil, nesse contexto, deixa de ser apenas mais uma frente competitiva. O duelo contra o Fortaleza será também um teste para essa blindagem recém-reafirmada. Mata-mata costuma encurtar paciências, sobretudo em clubes acostumados a disputar títulos. O Palmeiras de Abel já construiu reputação suficiente para não ser tratado como projeto comum. Mas reputação, no futebol brasileiro, nunca substitui resultado por muito tempo.

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