Leonardo de Sá
A possibilidade de um terceiro mandato consecutivo de Leila Pereira à frente do Palmeiras passou a movimentar os bastidores do clube e reacendeu um debate recorrente no futebol brasileiro: o uso de mudanças estatutárias para prolongar gestões no poder. Embora ainda não exista uma proposta formal apresentada, a simples discussão sobre o tema foi suficiente para gerar desconforto no Conselho Deliberativo e romper um período de relativa estabilidade política no clube.
Mais do que um episódio isolado no Palmeiras, a situação remete a um padrão já visto em outros grandes clubes do país, onde dirigentes, geralmente amparados por momentos esportivos favoráveis e forte respaldo interno, recorreram a alterações nas regras para estender suas permanências no comando.

Juvenal Juvêncio (São Paulo)
Presidente do São Paulo em dois períodos distintos — de 1988 a 1990 e, posteriormente, entre 2006 e 2014 — Juvenal Juvêncio esteve à frente do clube durante uma de suas fases mais vitoriosas no século. Sob sua gestão, o Tricolor conquistou três títulos brasileiros consecutivos, entre 2006 e 2008, o que lhe garantiu amplo capital político dentro do Morumbi.
Em fevereiro de 2011, o Conselho Deliberativo aprovou uma mudança estatutária que permitiu a Juvenal concorrer a um terceiro mandato seguido. À época, apenas 14 dos 158 conselheiros votaram contra a alteração. Juvenal permaneceu no cargo até 2014. O último título nacional do clube foi o Campeonato Brasileiro de 2008, enquanto a última conquista internacional veio com a Sul-Americana de 2012.

Anos depois, em 2021, o São Paulo voltaria a discutir o tema. Julio Casares tentou aprovar uma reforma estatutária mais ampla, que prorrogaria mandatos, mas a proposta foi barrada pelos sócios. Posteriormente, uma mudança mais pontual foi aprovada, permitindo a reeleição e abrindo caminho para a tentativa de permanência no poder.
Romildo Bolzan (Grêmio)
No Grêmio, o movimento aconteceu durante a gestão de Romildo Bolzan, presidente entre 2015 e 2022. Amparado por conquistas expressivas, como a Copa do Brasil e a Libertadores, Bolzan conseguiu, em 2019, viabilizar um terceiro mandato consecutivo. Antes não podia.
Para isso, o clube promoveu alterações estatutárias e explorou uma brecha na Lei do Profut, somando mandatos com durações diferentes para justificar a permanência por até oito anos no cargo. A estratégia permitiu a continuidade da gestão, mas o ciclo terminou de forma negativa, com o rebaixamento do clube para a Série B em 2021. Bolzan deixou a presidência no ano seguinte.

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Maurício Galiotte (Palmeiras)
O próprio Palmeiras já viveu situação semelhante antes da gestão atual. Maurício Galiotte presidiu o clube entre 2016 e 2021, período marcado por reorganização administrativa e crescimento esportivo. Em 2018, durante seu mandato, o estatuto foi alterado para ampliar a duração da presidência de dois para três anos.
Apesar de resistência interna, a mudança foi aprovada pelo Conselho Deliberativo do clube. A alteração beneficiou diretamente Leila Pereira, então conselheira e patrocinadora do Palmeiras. Ela pôde se candidatar à presidência em 2021. Sem a mudança, teria de aguardar até o ano seguinte.

Cenário em aberto
Embora ainda exista resistência dentro do Conselho Deliberativo, a percepção nos bastidores é de que uma eventual proposta de mudança estatutária pode avançar, caso seja formalizada no clube. Leila mantém forte apoio político, especialmente entre os associados, o que pesa no cálculo interno. Ela teria 120 conselheiros do seu lado de um total de 300. Precisaria de metade mais um.
Ainda assim, o debate reacendido nas últimas semanas indica que o tema tem potencial para romper a harmonia política construída nos últimos anos e abrir um novo capítulo de tensão institucional no Palmeiras.





