A Copa do Mundo não pode conviver com a suspeita de que alguns jogadores disputam os jogos sob o manto do protecionismo, condição que lhe dá especial distinção na aplicação das regras. Uma espécie de blindagem. Não importa se essa percepção corresponde ou não à realidade. No esporte, como na vida, a confiança na imparcialidade é tão importante quanto a imparcialidade em si. E, hoje, nenhuma discussão ocupa tanto as redes sociais, os programas esportivos e as mesas de bar quanto a impressão de que Lionel Messi recebe um tratamento diferenciado dos árbitros, quase uma vassalagem.
É preciso separar as coisas. Não há qualquer elemento que sustente a existência de um esquema organizado para favorecer a Argentina ou seu maior craque. Fazer uma afirmação dessa gravidade sem provas seria irresponsável.

Mas também seria ingenuidade fingir que nada está acontecendo. A sucessão de lances controversos envolvendo Messi vem consolidando um sentimento que já ultrapassou as rivalidades nacionais e a terra sem lei da internet. A impressão de que o argentino é protegido pela arbitragem deixou de ser uma reclamação isolada para se transformar em um dos grandes debates desta Copa.
Messi poderia ter sido expulso
Contra a Argélia, na partida de estreia da Argentina, a entrada de sola sobre Mandi foi punida apenas com falta, sem cartão amarelo e sem intervenção do VAR. Para muitos analistas, o pisão na panturrilha do adversário era lance típico para vermelho. Messi não foi expulso e marcou três gols na partida. Na noite desta sexta-feira, no emocionante mata-mata contra Cabo Verde, a condução do árbitro canadense Drew Fischer botou mais lenha nessa fogueira. A cobrança rápida de uma falta provocou enorme controvérsia.
Enquanto o goleiro Vozinha ainda organizava a barreira, a cobrança foi permitida, surpreendendo o goleiro africano, que teve de se virar para fazer a defesa a qualquer custo. Há quem veja inteligência e malícia do camisa 10. Há quem enxergue falha da arbitragem ao não controlar adequadamente a reposição da bola diante de uma “esperteza” que fere a lei do jogo.
Messi está sendo beneficiado?
O problema não é que todos concordem. É justamente o contrário: decisões semelhantes parecem produzir critérios diferentes quando Messi está envolvido. Se fosse outro jogador na cobrança da falta, o juiz não iria mandar repetir o lance? Talvez nenhuma dessas decisões favoráveis a Messi, analisadas isoladamente, seja suficiente para sustentar uma acusação de favorecimento. O futebol sempre conviveu com interpretações distintas. O árbitro decide em segundos, sob enorme pressão. O VAR também está longe de ser infalível.

O problema nasce quando os episódios começam a se acumular. A percepção pública não é construída por um único lance, mas pela repetição. Quando um jogador passa a receber faltas que dificilmente seriam marcadas a favor de outros atletas menos famosos, quando entradas mais duras terminam sem advertência ou quando determinadas decisões sempre parecem pender para o mesmo lado, instala-se uma suspeita que corrói silenciosamente a credibilidade da arbitragem.
Causa incômodo pensar que Messi tem recomendação para ser blindado. É importante dizer que Messi não precisa disso. Talvez nenhum jogador da história recente tenha construído uma carreira tão sólida apenas com seu talento. Sua genialidade dispensa qualquer proteção institucional. Se há um atleta capaz de decidir partidas pela própria capacidade, esse atleta é Lionel Messi. Justamente por isso, qualquer sinal de condescendência acaba produzindo um efeito perverso: diminui o mérito de quem sempre foi grande por conta própria e alimenta as teses conspiratórias.
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A arbitragem deveria ser a primeira interessada em eliminar essa impressão. Não basta ser imparcial; é preciso parecer imparcial. A regra existe para todos ou deixa de ser regra. Quando um craque passa a ser percebido como um personagem intocável dentro de campo, perde a arbitragem, perde a competição e perde o próprio jogador. O futebol até suporta o erro humano. O que ele não tolera é a sensação de que todos são iguais perante as leis do jogo – mas alguns são “mais iguais” aos olhos do juiz.





