Antes de tudo, é preciso admitir uma evidência: Lionel Messi não precisa ser comparado a Pelé para ter sua grandeza reconhecida. A Copa do Mundo que o craque conclui neste domingo, independentemente do resultado final entre Argentina e Espanha, é mais um capítulo extraordinário de uma carreira irrepreensível, capaz de emocionar até os mais resistentes aos encantos do futebol. Mas é justamente a exuberância de Messi que faz renascer um debate antigo, recorrente e, sobretudo, improdutivo: afinal, ele superou Pelé?
A comparação é, antes de tudo, um equívoco. A resposta, por mais que desagrade aos argentinos — e até a alguns brasileiros seduzidos pela lógica dos números contemporâneos —, continua sendo a mesma. Não. E não porque Messi seja pequeno. Ao contrário. É porque Pelé ocupa um lugar que escapa a qualquer escala comparativa. O futebol sempre procurou um novo Pelé. Tentou encontrá-lo em Johan Cruyff, em Diego Maradona, em Ronaldo Fenômeno, em Ronaldinho Gaúcho, em Cristiano Ronaldo e, agora, em Lionel Messi. Nenhum deles fracassou. Apenas esbarrou numa realidade inevitável: Pelé era e sempre será único.

Messi no pedestal
Durante décadas, a Argentina alimentou a narrativa de que Maradona havia superado o Rei. Era uma discussão compreensível, impulsionada pelo título mundial de 1986 e pela idolatria absoluta que Diego despertava, a ponto de ser cultuado no país como Deus, símbolo de uma religião. O tempo passou, Maradona saiu de cena e o debate apenas mudou de personagem. Agora, o esforço é para colocar Messi nesse mesmo pedestal. É um desejo compreensível, que dialoga com o orgulho nacional argentino e com a necessidade de possuir o maior jogador da história. Mas continua sendo um exercício condenado à incompletude.
Porque Pelé fez tudo primeiro. E tudo melhor. Tecnicamente, não haverá outro jogador tão completo, com tantas valências e marcadores de excelência. Essa talvez seja a maior diferença entre ele e qualquer outro gênio que o sucedeu. Pelé inaugurou caminhos. Inventou possibilidades. Transformou gestos técnicos em patrimônio do futebol. Muito antes de o esporte ser globalizado, televisionado em alta definição, impulsionado pelas redes sociais e acompanhado em tempo real por bilhões de pessoas, ele já fazia exatamente aquilo que hoje encanta o mundo. Não por acaso, foi eleito Atleta do Século e aclamado Rei do Futebol. Eterno!
Pelé é eterno
Pelé foi o primeiro adolescente a dominar uma Copa do Mundo. O primeiro grande astro global do futebol. O único tricampeão mundial como protagonista. O primeiro atleta a transformar um esporte em espetáculo planetário. Um jogador que parou uma guerra civil. Mais do que conquistar recordes, Pelé criou o padrão pelo qual todos os outros passaram a ser medidos. É justamente por isso que as comparações ignoram um fator decisivo: o tempo.
Messi joga na era da medicina esportiva de excelência, dos gramados impecáveis, da preparação física científica, da nutrição personalizada, dos centros de treinamento de última geração, da tecnologia aplicada ao desempenho e de regras que protegem muito mais os jogadores de talento — capítulo no qual Messi tem sido figura central nessa Copa.
Pelé jogou praticamente sem nada disso. Atuou numa época em que zagueiros tinham licença quase irrestrita para bater, substituições eram limitadas, cartões sequer existiam nas primeiras Copas de sua carreira e o tratamento médico das lesões estava a anos-luz do que se conhece hoje. Ainda assim, era um fenômeno físico absolutamente fora da curva. Força, velocidade, impulsão, explosão, coordenação e potência faziam dele um atleta que parecia pertencer a outro planeta. É inevitável imaginar o que seria Pelé submetido aos métodos científicos atuais. Se já parecia um superatleta na década de 1960, seguramente, hoje, suas qualidades seriam ainda mais impressionantes.

Primeiro astro mundial
Há outro aspecto frequentemente esquecido. Enquanto os clubes europeus acumulavam títulos continentais, o Santos de Pelé frequentemente interrompia sua temporada para realizar excursões internacionais. Não era uma escolha esportiva. Era uma necessidade econômica e, ao mesmo tempo, um privilégio histórico. O mundo inteiro queria assistir Pelé jogar. O Santos deixou de disputar inúmeros torneios para viajar por todos os continentes porque o maior espetáculo do futebol mundial vestia sua camisa. Essas excursões ajudaram a popularizar definitivamente o esporte e explicam, inclusive, por que o clube não acumulou quantidade ainda maior de títulos oficiais.
Pelé não apenas jogava futebol. Ele exportava o futebol. Ele era a marca do futebol. Num planeta sem internet, sem redes sociais e com transmissões internacionais extremamente limitadas, tornou-se provavelmente a marca mais famosa do mundo, no nível do Papa e da Coca-Cola. Fez isso quando a globalização sequer existia como conceito. Esse contexto simplesmente não pode ser ignorado. Comparar jogadores de épocas diferentes exige compreender as circunstâncias em que cada um construiu sua história. Não basta colocar estatísticas lado a lado. É preciso entender o futebol que cada um encontrou. Nada disso diminui Lionel Messi.
Maradona abaixo
Ao contrário. Messi é um gênio absoluto. Talvez seja, ao lado de Maradona, o maior jogador que surgiu depois de Pelé. Sua capacidade técnica, sua inteligência, sua regularidade durante quase duas décadas e sua liderança transformaram definitivamente a história da seleção argentina. Talvez, para os argentinos, Messi represente até mais emocionalmente do que Pelé representou para os brasileiros. Existe uma explicação para isso.
Messi, hoje, é quase um solista. Há muitos anos, carrega praticamente sozinho as expectativas de um país inteiro. Já Pelé dividia protagonismo com uma constelação de craques. Garrincha, Didi, Vavá, Zagallo, Gérson, Rivellino, Jairzinho, Tostão e tantos outros formavam equipes que hoje seriam consideradas verdadeiras seleções de galácticos.

Cada um no seu lugar
Nem por isso o brilho de Pelé diminuía. Pelo contrário. Era justamente ele quem fazia todos parecerem ainda maiores. O problema do debate é querer transformar a grandeza de Messi numa disputa de rebaixamento de Pelé. Não é preciso diminuir um para engrandecer o outro. Messi conquistou seu lugar definitivo na eternidade do futebol. Não deve satisfação a ninguém. Não precisa superar Pelé para ser imortal.
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Mas Pelé permanece acima da comparação justamente porque foi ele quem estabeleceu o teto da grandeza. Antes dele, o futebol era um jogo extraordinário. Depois dele, passou a procurar incessantemente um novo Pelé. E essa busca, passados quase cinquenta anos de sua despedida, continua sem encontrar resposta. Campeão ou não, Messi seguirá sendo um gênio. Mas, diante de Pelé, seguirá sendo “apenas” Messi.





