Neymar resolve o jogo em dois toques de classe e turbina seu projeto pessoal de ir à Copa

Ele está longe de ser o jogador que o mundo consagrou. O corpo não responde com a mesma leveza. Mas há coisas que não mudam

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Neymar tem um plano para convencer Carlo Ancelotti de que ele deve ser convocado para a seleção brasileira que vai disputar a próxima Copa do Mundo. O roteiro é claro: jogar tudo o que puder até a convocação, de preferência onde se sente dono — a Vila Belmiro. Ali, onde o tempo parece andar diferente quando a bola encosta no seu pé, ele tenta encurtar o caminho até a Copa, a despeito das dúvidas que seu estado físico precário despertam em Ancelotti e outros tantos milhões de “treinadores” da seleção em tempo de Copa.

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O primeiro capítulo desse projeto pessoal foi encenado com relativo sucesso na noite chuvosa desta quinta-feira na Baixada. O Santos venceu o Remo por 2 a 0, num jogo pobre, arrastado, quase indigesto. Mas bastaram dois lances de Neymar para que a noite ganhasse algum sentido. Não foi uma atuação exuberante, nem perto disso. Talvez pouco para convencer Carlo Ancelotti. Mas suficiente para lembrar que, mesmo longe do ideal físico, ainda há ali um jogador capaz de decidir.

Neymar participa dos dois gols do Santos na vitória do time sobre o Remo na Vila Belmiro / Santos FC

Num duelo marcado por faltas duras, erros técnicos e pouca inspiração — mais batalha do que futebol —, Neymar foi o ponto fora da curva. Criou os dois gols que definiram o placar e deu ao Santos uma vitória que vale mais pelo alívio do que pelo desempenho. Afasta o time da zona incômoda do rebaixamento e devolve algum fôlego a um ambiente que andava sufocado. Sem ele, é difícil imaginar que a situação seria melhor.

Dentro da Vila

Não é por acaso que Neymar quer delimitar seu território nessa reta final. A Vila é o seu abrigo. Ali, ele tem protagonismo garantido, carinho automático e a sensação de controle que o acompanha desde os tempos de “Menino da Vila”. Entrou em campo com as filhas no colo, como quem atravessa o próprio quintal. Antes do apito, deixou-as à beira do gramado nos braços da mulher, deu um beijo nelas e foi jogar — certo de que, de alguma forma, o jogo passaria por ele.

E passou. Aos 39 minutos do primeiro tempo, achou um passe improvável entre linhas para Thaciano abrir o placar. No segundo gol, participou desde a origem, com a leitura rápida de quem antecipa o lance antes dos outros. Numa retomada de bola da defesa, só deu um tapa na bola para deixar o lateral Escobar com o caminho livre para se projetar no ataque. Dentro da área, o lateral viu Moisés penetrando livre pelo miolo e tocou para ele empurrar para as redes. Dois gestos técnicos em meio ao caos que definiram um jogo que tinha cheiro de 0 a 0.

Neymar resolveu

No fim, Neymar saiu de campo abraçado a outro filho, Davi Lucca, como quem entende o peso simbólico daquela noite. “Fico feliz por ter ajudado minha equipe”, disse, com o discurso protocolar de quem sabe que está sendo avaliado o tempo todo. Irritou-se, porém, com o terceiro amarelo que o tira do duelo com o Flamengo — jogo que fazia parte do seu próprio planejamento nessa corrida contra o tempo. E pegou pesado na crítica ao árbitro, até num tom deselegante e machista. “O Sávio acordou de “chico” e veio apitar. Ninguém pode falar com ele. Tomei uma pancada nas costas, fui reclamar e tomei o amarelo. Ele não respeita os jogadores”, protestou, falando grosso, como o dono da casa.

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Neymar ainda está longe de ser o jogador que o mundo consagrou. O corpo já não responde com a mesma leveza, e o ritmo do jogo por vezes o engole. Mas há coisas que não se perdem: o talento, a visão, a inteligência para decidir quando o jogo parece não oferecer saída. Contra o Remo, apanhou bastante, como nos velhos tempos, e respondeu do jeito que sabe — jogando bola dentro de suas limitações presentes. Pode parecer pouco para Ancelotti. Mas, para Neymar, cada noite como essa é um passo. E, para o Santos, é um respiro.

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