Por Fabrício Barcelos

Caieiro não é de Caieiras — mora na região da Luz. A cada jogo no Canindé, se vê diante de um dilema, quase moral: ir a pé ou de metrô? Caieiro fica desconfortável com as insinuações de preguiça. Sabe que, no Brasil, corpo mole é a única justificativa dada para a pobreza; das outras, é feio falar. Ainda assim, embarca na Tiradentes.

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Dispensa a caminhada pelas ruas do Pari, carentes de tudo, exceto de barulho e lixo nas esquinas. O trajeto desde a estação Tietê, onde desce, tampouco é uma alameda aprazível. A visão e o olfato sofrem agressões naqueles mil e seiscentos metros. Caieiro se impressiona com a incapacidade do paulistano para a vida em sociedade, expressa na podridão do Tietê. Tudo aquilo jogado no espaço público boia nas águas criminosamente escuras do rio, num espetáculo degradante cujos efeitos alguém, mais adiante, talvez no futuro, terá de enfrentar.

A desilusão com a humanidade, pensa Caieiro, se digere melhor em grupo. Pega o metrô pelo prazer da romaria em verde e vermelho. Sábado passado foi assim: chovia. Na rotatória que a prefeitura batizou de Praça Oswaldo Teixeira Duo, ele e os cúmplices de infortúnio tiveram a fé testada. Precisaram escalar a mureta e se equilibrar nas grades para não pisotear as poças de água turva, espécie de spa para bactérias de esgoto.

O DE GRAÇA QUE SAI CARO

Ah, o ingresso de graça… Aceitou, mas o dia deu em chuvoso. A água caiu inclemente, alternando entre uma garoa-para-molhar-trouxa e pingos grossos, contra os quais a capa do camelô pouco podia fazer. Os tênis, encharcados, emitiam sons aquosos a cada passo no cimento quase cru da arquibancada, aquela voltada para a Marginal. Estava imerso em desconfortos úmidos quando viu o gol.

Disparou em direção ao amigo Álvaro, engolindo chuva enquanto gritava. Detiveram-se num abraço apertado, que drenou em parte as camisetas. Comovido, Álvaro olhou nos olhos de Caieiro e disse:

— Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.

UM CALOR QUE SÓ NOS ALCANÇA VINDO DO OUTRO

Foi 2 a 0, o jogo. Mas o resultado talvez pouco importe a quem foi lá, indiferente aos recados da meteorologia. O futebol, sobretudo esse que exige sacrifícios físicos e riscos sanitários, existe para despertar um sol que se nega a acender dentro de nós. É um calor que só nos alcança vindo dos outros.

Na volta ao metrô, pendurado feito um menino nas grades de mureta para desviar das poças com jeitão de esgoto, Álvaro voltou a olhar nos olhos de Caieiro.

– Carinhos? Afetos? São memórias. É preciso ser-se criança para os ter.

QUEM É ELE

Nascido em Pelotas (RS), há já distantes 52 anos, Fabrício Barcelos é jornalista e professor de Literatura. Liderou redações em São Paulo, Santa Catarina e Goiás e hoje se dedica a narrativas de relações públicas. Também dá aulas no Cursinho Demétrio Campos, voltado à população trans. É torcedor do Brasil de Pelotas, o Xavante, o que deixa evidente que se interessa menos pela beleza do que ocorre dentro de campo e mais pelo que inventamos em torno do jogo, para espantar a solidão e o vazio da existência. É sobre essa ficção coletiva que trata nas crônicas que escreve por aqui. Jornalista, cronista e professor de
Literatura. Fabrício Barcelos chega para reforçar o time do The Football.

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