A escalação da seleção brasileira para a estreia na Copa do Mundo continua sendo um dos segredos mais bem guardados por Carlo Ancelotti. Até aqui, só ele sabe a escalação para a e estreia do Brasil, sábado, contra Marrocos. Mas se existe uma dúvida que ganhou força nos últimos dias, ela atende pelo nome de Endrick.

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Aos 19 anos, o atacante chega ao Mundial cercado por uma expectativa que cresce a cada treinamento, a cada amistoso e a cada demonstração de personalidade. Autor do gol da vitória sobre o Egito no último compromisso preparatório antes da Copa, Endrick viu seu prestígio aumentar não apenas junto à torcida, mas também entre os analistas que enxergam nele uma peça capaz de entregar ao Brasil um equilíbrio que a equipe ainda busca desde a chegada do treinador italiano.

Endrick fez o gol que deu a vitória para o Brasil diante do Egito, no último amistoso antes da Copa do Mundo / CBF

Se a escolha realmente recair sobre o jovem atacante para a partida deste sábado contra o Marrocos, estaremos diante de uma interessante ironia do destino.

Quando trabalharam juntos no Real Madrid, Ancelotti e Endrick não viveram exatamente uma história de conto de fadas. O brasileiro recebeu poucas oportunidades, passou boa parte do tempo em segundo plano e acabou sendo emprestado ao Lyon. Foi justamente na França que encontrou o espaço necessário para amadurecer, ganhar confiança e mostrar todo o potencial que o transformou em uma das maiores promessas do futebol mundial.

Caminhos da maturidade

Talvez tenha sido mais uma etapa natural na trajetória de um garoto acostumado a encarar desafios antes da hora.

Foi assim no Palmeiras, quando ainda nem havia completado 17 anos e já carregava sobre os ombros a pressão reservada aos grandes craques. Foi assim também fora dos gramados, quando precisou lidar com a fama precoce, a exposição constante, um casamento apressado… Em resumo, uma vida pessoal frequentemente transformada em manchete. Houve momentos em que pareceu deslumbrado pelo tamanho do próprio sucesso. Mas houve também maturidade suficiente para colocar os pés no chão e reencontrar o caminho.

Hoje, Endrick transmite a imagem de alguém pronto para assumir responsabilidades maiores.

Não por acaso, seu nome vem sendo tratado com cada vez mais entusiasmo dentro e fora da Seleção. Contra o Egito, marcou o gol da vitória, recebeu um beijo de Ancelotti na comemoração e foi elogiado publicamente pelo treinador.

“Endrick tem essa qualidade. É muito potente, muito bem posicionado na área, marcou… É um jogador importante para nós. Tem que seguir”, afirmou o italiano após a partida.

As palavras chamaram atenção porque vieram do mesmo técnico que, meses atrás, parecia enxergar o atacante apenas como uma opção complementar. Hoje, o cenário é outro.

Números que assinam embaixo

A imprensa espanhola percebeu isso. Em crônica publicada pelo jornal “As”, Endrick foi chamado de “terremoto” e apontado como um candidato real a assumir a camisa 9 da seleção nesta Copa do Mundo. O texto recorda que Ancelotti lhe concedeu poucas oportunidades no Real Madrid, mas destaca que o brasileiro encerrou a temporada europeia com números respeitáveis: sete gols e uma assistência em apenas 847 minutos distribuídos por 37 partidas.

Na Seleção, os números também ajudam a explicar a crescente pressão popular por sua titularidade.

Convocado pela primeira vez por Fernando Diniz, em novembro de 2023, Endrick participou de 17 partidas vestindo a camisa amarela. Foi titular apenas uma vez, justamente no empate sem gols contra o Uruguai que culminou na eliminação brasileira na Copa América. Ainda assim, acumulou cinco participações diretas em gols: marcou quatro vezes e distribuiu uma assistência. Mais importante do que a quantidade é o peso desses lances. Em todas essas participações, foi decisivo para uma vitória brasileira ou para evitar uma derrota.

São estatísticas que reforçam a percepção de que sua influência no time costuma ser maior do que o número de minutos recebidos.

Mas existe um aspecto talvez ainda mais importante.

O retorno do homem-gol

A presença de Endrick representaria também uma mudança conceitual na maneira como o Brasil se enxerga ofensivamente. Desde que Ancelotti chegou, a seleção apostou em sistemas sem um centroavante clássico, valorizando a mobilidade dos atacantes e a troca constante de posições. Em muitos momentos funcionou. Em outros, deixou evidente a falta de presença de área, de referência e de poder de definição dentro da zona mais decisiva do campo.

Endrick oferece justamente isso.

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Sua eventual titularidade seria também um resgate de uma tradição histórica do futebol brasileiro: a dos centroavantes capazes de decidir Copas do Mundo.

Foi assim em 1994, justamente nos Estados Unidos, palco principal deste Mundial. Naquele time organizado e pragmático de Carlos Alberto Parreira, Romário foi o diferencial absoluto. Dizer que ganhou a Copa sozinho seria uma injustiça com o restante da equipe, mas a figura de linguagem ajuda a medir sua importância para a conquista do tetracampeonato.

Oito anos depois, Ronaldo transformou a Copa de 2002 em sua obra-prima. Os dois gols na final contra a Alemanha o colocaram definitivamente entre os maiores jogadores da história do futebol.

Toda geração campeã costuma ter seu homem-gol.

Existe a hora certa?

Talvez seja cedo demais para colocar Endrick na mesma prateleira. Talvez seja injusto exigir isso de um garoto que sequer disputou sua primeira partida em Copa do Mundo.

Mas o futebol não costuma pedir licença para acelerar seus personagens.

Aos 19 anos, Endrick chega ao maior palco do esporte carregando números, talento e personalidade suficientes para sonhar alto. E talvez carregue também algo ainda mais valioso: a confiança de um treinador que, depois de tanto tempo observando-o à distância, parece finalmente ter compreendido o tamanho do jogador que tem nas mãos.

Somente Ancelotti sabe quem estará em campo diante do Marrocos.

Mas se o nome de Endrick aparecer entre os titulares, já não ser mais surpresa.

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