A Itália voltou a flertar com o abismo. Humilhada pelos vikings da Noruega — uma seleção organizada, viril e guiada pela fúria goleadora de Haaland —, a Azzurra terminou a fase de grupos das Eliminatórias europeias apenas em segundo lugar e, mais uma vez, terá de recorrer à repescagem para tentar salvar o que ainda resta de sua tradição no caminho para a Copa de 2026. O último ato dessa tragédia foi a derrota por 4 a 1 diante dos noruegueses, que garantiram a volta do país a um Mundial depois de quase três décadas.
Em contrapartida, o drama italiano ficou mais real: apenas quatro países conseguirão a vaga via repescagem, e ninguém ousa descartar a possibilidade de a tetracampeã mundial ficar fora de um Mundial pela terceira vez seguida. Seria um golpe quase irreversível na autoestima do calcio e um capítulo amargo na história de uma camisa que já foi sinônimo de excelência competitiva. A temida e respeitada Squadra Azzurra hoje é só um retrato envelhecido, amarelado, de suas melhores tradições.
Pode ficar fora da terceira Copa
A perplexidade é global. Afinal, o que aconteceu com o futebol italiano? Como o país que dominou os anos 90, que ditou moda tática e estética, que inspirou gerações com sua dureza defensiva e seus maestros de meio-campo, viu-se reduzido a figurante nas últimas décadas? Não é falta de estrutura nem de dinheiro. Afinal, a Série A continua forte, relevante, com clubes que investem pesado e disputam títulos continentais.

Mas talvez o problema esteja justamente aí: num campeonato onde a presença massiva de estrangeiros tornou-se norma, o espírito e a cultura do futebol italiano foram se dissolvendo lentamente, como se a identidade da Azzurra tivesse sido terceirizada.
Outro sinal da decadência — apontado por cada vez mais analistas — é a fragilidade na formação de talentos. A base italiana, que já produziu gerações inteiras de jogadores reconhecíveis à primeira vista, hoje sofre com a falta de espaço. Os clubes, pressionados por resultados imediatos, continuam priorizando atletas prontos importados de outras ligas. Os meninos que despontam mal têm minutos, mal têm paciência. O funil é tão estreito que a renovação da seleção tornou-se quase um acidente, nunca um processo natural. E seleção sem renovação é seleção que envelhece antes do tempo.
Há ainda um fio de esperança
A repescagem existe e a chance matemática também. Mas o ponto central já está dado: este novo ciclo escancara a urgência de uma reinvenção profunda. A Itália precisa reencontrar sua própria alma — a coragem, a disciplina, o rigor técnico, a inteligência tática — para voltar a ser grande. Do contrário, continuará presa a um passado que só serve para expor o tamanho do presente que não chegou.





