O problema do Palmeiras deixou de ser pontual. Já não cabe mais tratá-lo como um tropeço isolado, uma partida ruim ou consequência natural de um calendário apertado. No momento em que a temporada começa a cobrar decisões, o time de Abel Ferreira entrou justamente em sua fase de maior instabilidade, que culminou com a derrota para o Fluminense, por 3 a 2, após ficar duas vezes em vantagem. Continua líder do Campeonato Brasileiro, está nas quartas de final da Copa do Brasil e permanece vivo na Libertadores. Mas a fotografia é muito mais bonita do que o filme das últimas semanas.
A derrota no Maracanã, talvez seja o retrato mais fiel deste Palmeiras que começa a flertar perigosamente com uma crise. O líder permitiu duas reações do adversário e acabou derrotado nos acréscimos por um rival que chegou ao jogo mergulhado em problemas, sem vencer havia oito partidas e apenas dois dias depois da demissão de Luis Zubeldía. Marcão assumiu interinamente e encontrou justamente diante do primeiro colocado o combustível para iniciar uma reação. Se havia um adversário fragilizado emocionalmente, portanto, o Tricolor das Laranjeiras. Ainda assim, quem terminou o sábado dando sinais mais preocupantes foi o visitante.

Com esse alívio, o Flu sustenta a terceira colocação, com 38 pontos, e vai com confiança para encarar o Independiente Rivadavia, terça-feira, no jogo de volta das oitavas de final da Libertadores. No primeiro jogo, as duas equipes empataram sem gols, no Maracanã.
Palmeiras cava buraco
O paradoxo ajuda a explicar o tamanho do problema. A campanha acumulada no Brasileiro continua forte. O presente, nem tanto. No recorte posterior à Copa do Mundo, o Palmeiras disputou cinco partidas pela competição nacional: venceu Coritiba e Vitória, perdeu para Atlético-MG e Fluminense e empatou com o Internacional. São duas vitórias, um empate e duas derrotas, sete pontos conquistados em 15 possíveis. Quando todas as competições entram na conta, a perda de velocidade fica ainda mais evidente. Desde a volta do Brasileiro, foram oito partidas: três vitórias, dois empates e três derrotas. E o Palmeiras agora chega a quatro jogos consecutivos sem ganhar. Perdeu por 3 a 2 para o Fortaleza na volta das oitavas da Copa do Brasil, empatou sem gols com o Internacional, ficou no 1 a 1 com o Cerro Porteño e, agora, tombou diante do Fluminense.
É verdade que a derrota para o Fortaleza não impediu a classificação. O 3 a 0 construído no primeiro encontro deu margem suficiente para o revés na Arena Pantanal e garantiu o avanço por 5 a 3 no agregado. O problema está exatamente aí: ultimamente, o Palmeiras parece sobreviver mais graças à gordura que construiu anteriormente do que ao futebol que apresenta agora. No Maracanã, a história se repetiu de maneira ainda mais cruel.
Gustavo Gómez abriu o placar aos nove minutos, de cabeça, depois de cobrança de escanteio de Piquerez. Era o cenário perfeito para um líder experiente jogar sobre a ansiedade de um adversário pressionado. Só que aconteceu o contrário. O Fluminense cresceu, tomou conta de boa parte do jogo e chegou ao empate aos 41, quando Canobbio cruzou e Hulk ganhou pelo alto para vencer Carlos Miguel.
Sonolência descabida
Mesmo sem produzir mais do que o dono da casa, o Palmeiras voltou à frente aos 36 minutos do segundo tempo. Flaco López desviou, Mauricio aproveitou e fez 2 a 1. Faltavam poucos minutos. Era novamente a oportunidade para um time acostumado a controlar partidas importantes fechar a porta e levar três pontos para São Paulo. Durou três minutos. Guga cruzou, Cano cabeceou, Carlos Miguel rebateu e Kevin Serna fez 2 a 2. Já nos acréscimos, quando o empate parecia consumado, Germán Cano desviou de cabeça e decretou a virada. De 2 a 1 aos 36 para uma derrota por 3 a 2 aos 46 minutos. Dez minutos suficientes para resumir boa parte da insegurança que tomou conta de uma equipe normalmente reconhecida por saber administrar vantagens.
Contra o Cerro Porteño, na última quarta-feira, no Nubank Parque, o Palmeiras também estava vencendo e permitiu o empate no fim. Contra o Fluminense, novamente não soube proteger um resultado favorável. Erros existem, mas quando começam a aparecer repetidamente dentro de um time coletivamente inseguro, porém, deixam de ser episódios desconectados. É exatamente este o perigo para Abel Ferreira. A classificação ainda protege o Palmeiras. A liderança ainda permite algum discurso de tranquilidade. Mas a gordura que durante semanas serviu como demonstração de força começa a escorrer pelos dedos.
Com a derrota, o Verdão estacionou nos 48 pontos após 23 partidas. O Flamengo entra em campo neste domingo, diante do Mirassol, fora de casa, com 42 pontos em 21 jogos. Ou seja: é o Palmeiras, e não o Flamengo, que neste momento tem dois jogos a mais. Se os cariocas vencerem em Mirassol, chegarão aos 45 pontos em 22 partidas. A vantagem alviverde cairá para apenas três pontos e, mais importante, os dois passarão a ter exatamente a mesma quantidade de pontos perdidos no campeonato.

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A confortável liderança, então, mudaria completamente de significado. E dificilmente poderia acontecer em hora pior. Na próxima quarta-feira, o Palmeiras entra na Nueva Olla, em Assunção, para enfrentar o Cerro Porteño pela volta das oitavas de final da Libertadores. Depois do empate por 1 a 1 em São Paulo, qualquer vitória garante a classificação. Novo empate leva a decisão aos pênaltis. Uma derrota encerra prematuramente uma competição que ocupa lugar central nas ambições do clube e no próprio trabalho de Abel Ferreira.





