A Copa começa com minutos de silêncio perturbadores. A três dias da abertura do Mundial, não se ouve uma voz de protesto às restrições do governo dos Estados Unidos à seleção do Irã. Onde está a indignação do futebol mundial? Onde estão os dirigentes, os jogadores, as federações, os defensores da diversidade e do respeito entre os povos quando uma seleção classificada para a Copa do Mundo é tratada como visitante indesejada pelo país anfitrião?

Tudo sobre a Copa do Mundo

A decisão do governo Donald Trump de impedir que jogadores e integrantes da comissão técnica do Irã durmam em solo americano durante o torneio, autorizando apenas entradas temporárias para a disputa das partidas, representa uma afronta aos princípios mais elementares que sustentam uma Copa do Mundo. E o mais espantoso talvez nem seja a medida em si, mas o silêncio constrangedor que a acompanha.

Irã Jogadores do Irã fazem o primeiro treino no hotel da concentração em Tijuana no México
Jogadores da seleção do Irã fazem o primeiro treino no hotel da concentração em Tijuana, no México / Teammellifootball

Irã luta sozinho

Se a Copa do Mundo existe para aproximar culturas, derrubar fronteiras simbólicas e celebrar a convivência entre diferentes povos, o que acontece quando um dos participantes é transformado em exceção política? O que resta do discurso de inclusão tão repetido por dirigentes e entidades quando uma seleção inteira passa a ser submetida a regras que não se aplicam aos demais concorrentes?

A ausência de uma reação firme da comunidade internacional do futebol transmite uma mensagem perigosa de submissão. A punição imposta aos iranianos não é apenas um episódio diplomático. É um golpe direto contra a essência do torneio mais importante do planeta. Pela primeira vez em quase 100 anos de Copa, uma seleção chega ao torneio sabendo que não terá os mesmos direitos logísticos e operacionais garantidos aos seus adversários.

E o que diz a Fifa?

Não se trata aqui de discutir governos, ideologias ou relações internacionais. A questão é também esportiva. O Irã conquistou sua vaga dentro de campo. Classificou-se pelos critérios estabelecidos pela Fifa. Tem o mesmo direito de disputar o Mundial que Brasil, Argentina, França, Alemanha ou qualquer outra seleção. A partir do momento em que uma equipe é obrigada a conviver com restrições impostas exclusivamente à sua nacionalidade, a igualdade competitiva deixa de existir.

Presidente da Fifa, Gianni Infantino, não se envolve em polêmica com o presidente dos EUA, Donald Trump / Fifa

Silêncio pertubador

O mais preocupante é que isso acontece sem provocar uma onda de repúdio à altura da gravidade do fato. A Fifa, tão rápida para se posicionar em inúmeras situações ao longo dos últimos anos, parece caminhar com extrema cautela quando o tema envolve o país que sediará a maior parte dos jogos da Copa. As grandes confederações permanecem em silêncio. Os discursos sobre respeito, integração e união dos povos desaparecem justamente quando são colocados à prova.

Uma Copa do Mundo não pode funcionar sob a lógica de que algumas seleções são mais bem-vindas do que outras. Não pode existir um torneio em que todos os participantes convivem normalmente, enquanto um deles é tratado como um visitante tolerado apenas durante noventa minutos.

A história das Copas está repleta de exemplos em que o futebol serviu como ponte em meio a tensões políticas. Muitas vezes, adversários em campos diplomáticos dividiram o mesmo gramado em nome de uma competição que se pretendia superior aos conflitos entre governos. Essa sempre foi uma das forças simbólicas do Mundial. Ao permitir que um participante seja submetido a um tratamento diferenciado, abre-se um precedente perigoso para o futuro.

Precedente perigoso

Hoje é o Irã. Amanhã poderá ser qualquer outro país que se encontre em desacordo com os interesses políticos do anfitrião de ocasião. E, se isso for aceito com naturalidade, a Copa deixará de ser uma congregação mundial. O silêncio que cerca essa situação é tão preocupante quanto a própria decisão. Porque as injustiças mais perigosas nem sempre são aquelas que encontram resistência. Muitas vezes são aquelas que avançam sem contestação, protegidas pela conveniência dos que preferem não se manifestar.

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A Copa do Mundo de 2026 ainda nem começou. Mas, antes mesmo de a bola rolar, já existe uma derrota que deveria envergonhar o futebol. Não a derrota de uma seleção dentro de campo, mas a derrota de um princípio. O princípio de que todos os classificados chegam ao Mundial em igualdade de condições.

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