Antes de a bola rolar para México x África do Sul, nesta quinta-feira, às 16h (horário de Brasília), no Estádio Azteca, na Cidade do México, a Copa do Mundo terá um brasileiro no centro do campo. Não será um atacante, um camisa 10, um técnico ou um dirigente. Será Wilton Pereira Sampaio, árbitro goiano, Fifa desde 2013, nome tarimbado no circuito internacional e, ao mesmo tempo, um dos juízes mais contestados do futebol brasileiro.
A escolha de Wilton Pereira Sampaio para o jogo de abertura não é um detalhe protocolar. É um gesto de confiança da Fifa. O primeiro apito de uma Copa carrega peso simbólico, exposição máxima e tolerância mínima ao erro. A entidade escalou o brasileiro para comandar México x África do Sul, ao lado dos assistentes brasileiros Bruno Pires e Bruno Boschilia. Também estarão na equipe os paraguaio Juan Gabriel Benítez como quarto árbitro, e Eduardo Cardozo como assistente reserva, o colombiano Nicolas Gallo no VAR, Jo chileno uan Lara como assistente de VAR e o francês Jérôme Brisard no apoio ao vídeo.

Brasil tem três representantes
Na lista da Copa de 2026, Wilton Pereira Sampaio aparece entre os 52 árbitros escolhidos pela Fifa para o torneio. O Brasil também terá Raphael Claus e Ramon Abatti Abel no quadro principal, mas foi Wilton quem recebeu a vitrine mais imediata. A abertura de Copa é uma espécie de cartão de visitas. Não decide título, não elimina ninguém, mas apresenta o tom. E o tom, para a Fifa, passa por um brasileiro que no próprio país raramente desfruta de unanimidade.
Natural de Teresina de Goiás, aos 44 anos, nascido em 28 de dezembro de 1981, Wilton Pereira Sampaio é árbitro Fifa-PRO registrado pela CBF. Sua estreia na elite nacional é apontada em 2007, e a entrada no quadro internacional ocorreu em 2013. Antes de chegar ao primeiro jogo da maior Copa da história, portanto, ele atravessou quase vinte anos de partidas grandes, decisões, reclamações, revisões de vídeo, pressão de clubes, críticas de torcedores e avaliações técnicas.
A trajetória dele tem um desses elementos de bastidor que ajudam a construir personagem. Wilton Pereira Sampaio formou-se na arbitragem do Distrito Federal e, no início, não foi visto necessariamente como um nome destinado aos grandes palcos. Havia até a percepção de que sua estatura não ajudava no perfil clássico de imposição que por muito tempo se esperou de um árbitro. No futebol, até quem apita é julgado por presença, postura e linguagem corporal. Wilton precisou vencer essa primeira barreira antes de se firmar nacionalmente.
Wilton Pereira Sampaio na elite
Depois, a carreira avançou. Ganhou espaço no futebol brasileiro, consolidou-se em jogos de Série A, passou a ser escalado em competições continentais e entrou no radar internacional. A história do árbitro que um dia foi visto como pequeno demais para o apito grande acabou virando, de certa forma, a história de um profissional que cresceu justamente no ambiente em que mais se duvidou dele.
Fora do Brasil, o currículo é robusto. Wilton esteve na operação de arbitragem de vídeo da Copa de 2018, apitou quatro partidas na Copa do Catar e agora chega à terceira experiência em Mundiais. Em 2022, trabalhou em Senegal x Holanda, Polônia x Arábia Saudita, Holanda x Estados Unidos e Inglaterra x França. Foi justamente esse último jogo que transformou sua passagem pelo Catar em tema de debate global.
Broncas de todos os lados
No confronto entre Inglaterra x França, pelas quartas de final, era jogo grande por natureza. Tradição, rivalidade, astros, vaga em semifinal e uma pressão que costuma engolir quem não está preparado. A França venceu por 2 a 1, mas a arbitragem saiu do estádio tão discutida quanto a classificação. Wilton marcou dois pênaltis para a Inglaterra, o que, em tese, poderia blindá-lo de acusações de prejuízo ao time inglês. Não blindou. Os ingleses deixaram o campo irritados e manifestaram a insatisfação.
As principais queixas envolveram uma possível falta de Upamecano em Saka antes do primeiro gol francês e um lance de Harry Kane no primeiro tempo, interpretado por muitos ingleses como pênalti. Harry Maguire criticou duramente a condução da partida. Jude Bellingham também afirmou que o nível da arbitragem não esteve à altura do jogo. A atuação de Wilton passou a ser vista, na Inglaterra, como parte do roteiro da eliminação.
O detalhe curioso é que a reclamação não ficou restrita aos derrotados. Do lado francês, Adrien Rabiot também questionou o segundo pênalti marcado para a Inglaterra. Foi o tipo de jogo em que nenhum lado saiu plenamente satisfeito com o árbitro, o que, para alguns, pode significar equilíbrio; para outros, perda de controle. Na prática, aquela partida colou na biografia internacional de Wilton uma marca difícil de apagar. Quando o mundo inteiro olhou para ele, a arbitragem virou personagem.
Ataques de nervos
No Brasil, essa sensação de exposição permanente é quase rotina. Wilton está entre aqueles árbitros que entram em campo acompanhados por uma reputação prévia. Antes mesmo da bola rolar, torcedores, dirigentes e jogadores já carregam na memória decisões anteriores, reclamações antigas e desconfianças acumuladas. É o tipo de juiz que não apita apenas o jogo do dia. Apita também contra o arquivo público que se formou em torno dele.
Em 2023, no empate por 4 a 4 entre Corinthians e Grêmio, a arbitragem voltou ao centro da discussão por causa de um pênalti não marcado para o Grêmio após toque no braço de Yuri Alberto. A CBF reconheceu o erro, afastou a equipe do VAR e analisou a atuação do árbitro principal. O episódio reforçou a imagem de Wilton como um nome capaz de atravessar grandes jogos deixando rastros de controvérsia.
No mesmo ano, depois da Supercopa do Brasil entre Palmeiras e Flamengo, o clube carioca entrou com pedido no STJD para afastar Wilton por 120 dias. A reclamação envolvia principalmente a validação do quarto gol palmeirense, marcado por Gabriel Menino, além de um histórico de insatisfação com decisões do árbitro. No ambiente inflamado do futebol brasileiro, Wilton se tornou mais uma vez alvo, símbolo e discussão.

Perigo no ar
Por isso, a história não é apenas sobre um árbitro escalado para México x África do Sul. É sobre a distância entre a percepção doméstica e a avaliação internacional. No Brasil, Wilton costuma ser julgado pela última polêmica. Na Fifa, é avaliado por relatórios, desempenho acumulado, postura em torneios e capacidade de sobreviver a ambientes hostis. Entre uma régua e outra, ele se mantém no topo.
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A abertura da Copa, portanto, será também um teste silencioso para Wilton Pereira Sampaio. Não haverá espaço para protagonismo. O melhor jogo possível para um árbitro é aquele em que sua presença se torna quase invisível. Mas essa invisibilidade, paradoxalmente, exige autoridade. Exige leitura, controle, precisão e coragem para decidir sob barulho.





