O futebol brasileiro aprendeu a celebrar cada vez mais os números das categorias de base — mas, ironicamente, deixou de comemorar o que realmente deveria importar: o fruto esportivo desse trabalho. Um estudo recente do Observatório do Futebol (CIES) colocou quatro clubes do país entre as 20 melhores escolas de formação do mundo. É um feito notável. O São Paulo aparece em 12º lugar, à frente de gigantes europeus. Corinthians, Flamengo e Palmeiras também figuram no seleto grupo, enquanto outros sete brasileiros estão no top 100. Mas o que esse ranking realmente revela?

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O líder é o Benfica, de Portugal, símbolo de um modelo em que a formação e o aproveitamento de jovens se traduzem em sucesso esportivo e financeiro. No Brasil, o mesmo dado serve para contar uma história diferente — a de um sistema que virou máquina de exportação, onde a base existe menos para formar jogadores e mais para gerar liquidez.

São Paulo ganha a Copinha de 2025 e vende bvoa parte dos garotos revelados na base na mesma temporada / SPFC

O São Paulo é um exemplo emblemático. Só nesta temporada, já ultrapassou os R$ 200 milhões em negociações de atletas revelados em Cotia. O último a sair foi Henrique Carmo, vendido ao CSKA, da Rússia. Antes dele, o atacante Lucas Ferreira foi para o Shakhtar Donetsk por 10 milhões de euros, podendo render mais 2 milhões de euros em bônus. Mas nem todo o dinheiro fica no clube: a fragmentação dos direitos econômicos dilui o lucro. É o retrato de um modelo em que o clube é, muitas vezes, mero intermediário entre empresários e o mercado europeu.

Palmeiras fez mais de R$ 1 bi na base

No Palmeiras, a escala é ainda mais impressionante: desde 2022, o clube faturou mais de R$ 1 bilhão com suas “Crias da Academia”. Somadas, as vendas de Endrick e Estêvão para Real Madrid e Chelsea, respectivamente ultrapassaram 120 milhões de euros. É o tipo de cifra que transforma o centro de formação em um ativo estratégico, mas também acende o alerta: até que ponto o clube resiste à tentação de vender antes da hora?

Breno Bidon: volante do Corinthians foi eleito o melhor jogador da Copinha de 2024 / Agência Paulistão

O que se vê, de forma generalizada, é uma lógica perversa. As promessas da base são tratadas como ativos de altíssimo valor, e não como futuros pilares do time principal. A ansiedade por transformar talento em caixa faz com que a formação sirva menos ao futebol e mais ao balanço. Vende-se uma joia ainda em lapidação para, pouco depois, gastar cifras semelhantes na compra de jogadores medianos e experientes — num ciclo irracional de dependência financeira e empobrecimento técnico.

Sistema intoxicado

Por trás disso, há o peso de um sistema intoxicado por empresários, intermediários e gestões de curto prazo. A pressa em fechar negócios serve para cobrir déficits, cumprir promessas de campanha e garantir comissões. E, enquanto isso, o futebol brasileiro vê seus jovens partirem sem viver o apogeu esportivo no país que os formou.

A base, no Brasil, virou um negócio à parte. E se os rankings internacionais a colocam entre as melhores do mundo, talvez o elogio venha com uma ponta de ironia: formamos para vender, não para jogar. O talento ainda nasce aqui — o problema é que, cada vez mais, amadurece longe.

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É hora de os clubes brasileiros entenderem que formar não é vender. Formar é sustentar o próprio jogo. A verdadeira riqueza da base não está nos milhões de euros que entram no caixa, mas nos craques que ficam para escrever história dentro de campo. Enquanto essa inversão de valores persistir, seguiremos exportando o que temos de melhor e importando o que sobrar — aplaudindo planilhas, mas empobrecendo o futebol.

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