Nova York – Na entrevista coletiva que as seleções concedem aos jornalistas, horas antes da final de uma Copa do Mundo, geralmente cabe aos capitães acompanharem os técnicos. Contudo, na sexta-feira, 17 de junho, não foi Lionel Messi quem esteve diante das câmeras e microfones no Javits Center, o moderno centro de convenções de Nova York, onde a Fifa organizou o ritual. Quem apareceu para conversar com a imprensa, com a tatuagem da bandeira argentina na sua nuca, foi um outro herói do país: Emiliano Martínez, apelido Dibu, o homem que, literalmente, agarrou o título mundial de 2022, no Qatar.

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Ele foi crucial no jogo contra a Holanda, nas semifinais, particularmente durante a tensa disputa por pênaltis, na qual defendeu as cobranças de Virgil van Dijk e Steven Berghuis. E na decisão, diante da França, o goleiro argentino teve outra atuação exuberante, apesar de ter sido vazado três vezes.

Dibu Martínez é um dos grandes pilares da seleção argentina na Copa do Mundo de 2026 / Reprodução

Fez a defesa da Copa de 2022, solitário e impassível, diante do atacante Kolo Muani. Fechou o ângulo do gol, e defendeu uma bola impossível cara a cara no finalzinho da prorrogação. Depois, só para variar, foi decisivo mais uma vez na disputa por pênaltis. Defendeu a cobrança do atacante Kingsley Coman e teve sorte, quando o volante Aurélien Tchouaméni bateu para fora, confirmando o tricampeonato mundial da Argentina. Certamente, a sua figura teve influência neste desfecho.

Coração na ponta da luva

Imortalizado como herói nacional em seu país, na entrevista no Javits Center, “Dibu” começou mencionando seu sacrifício pessoal para disputar o Mundial de 2026. “Disputei toda a competição com meu dedo anelar da mão direita fraturado”, disse, mencionando a lesão sofrida no aquecimento momentos antes do início da final da Liga Europa, em Istambul. Mesmo sentindo dores, o goleiro atuou 90 minutos e foi um dos melhores da equipe na partida em que o Aston Villa venceu o Freiburg, da Alemanha, por 3 a 0.

No entanto, desta vez seu espírito heroico poderia ter acabado mal para ele. Martínez explicou que, após a lesão, consultou médicos-ortopedistas nos Estados Unidos e no Reino Unido, que concordaram que ele precisava de cirurgia para se recuperar adequadamente. “Todos os especialistas em mão que consultei me disseram que eu não estaria apto para jogar e que precisava fazer uma cirurgia: mas, se eu operasse, não ia poder jogar o Mundial”, disse.

Decidi arriscar e apesar de sentir dores todos os dias e de ter precisado me poupar de várias sessões de treinamento, valeu a pena
Dibu Martínez

Segundo falou Dibu Martínez, esse espírito de sacrifício não é apenas uma marca individual sua, mas de toda a equipe da Argentina. “Eu e os outros jogadores da seleção temos origens humildes, viemos de famílias onde ambos os pais trabalham, somos filhos de gente batalhadora… e mesmo quando as coisas ficam difíceis, sempre damos a volta por cima”, disse.

A jornada do herói

A trajetória profissional do próprio Emiliano Martínez serve para ilustrar o que ele próprio diz. Em 2009, quando tinha 16 anos e ainda era estudante, ele não pensou duas vezes quando aceitou a proposta do Arsenal para mudar-se para Londres. Era o goleiro titular da seleção argentina sub-17 e seu talento tinha sido observado por um respeitável olheiro, Miguel Ángel Santoro, lendário goleiro do Independiente, o clube onde Dibu jogava nas categorias de base, e que o recomendou aos dirigentes ingleses.

Na noite anterior à viagem para a Europa, sua mãe, Susana, e o irmão Alejandro, foram conversar com ele: em lágrimas, insistiram para Dibu não ir embora. Mas ele estava decidido a seguir adiante – a situação da família, com dificuldades para pagar as contas, não deixaram outro caminho senão cruzar o oceano.

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A questão era que a concorrência no Arsenal era dura, com goleiros bons e mais experientes do que o jovem argentino promissor, como o colombiano David Ospina e o alemão Bernd Leno. Sem espaço no time titular restou a “Damián”, como ficou conhecido naqueles tempos (é o seu primeiro nome), zanzar por clubes pequenos, como o Oxford, o Sheffield United, o Wolverhampton, entre outros, durante os cerca de oito anos em que ficou encostado no clube de Londres.

Segundo Dibu Martínez declarou em entrevistas, muitas vezes pensou em voltar para a Argentina, mas não desistiu. Até que em 2020 a esperada oportunidade veio para ele. Em busca de um goleiro, o Aston Villa, o tradicional clube da cidade de Birmingham, se interessou por ele. Além de conquistar seu espaço e títulos em uma equipe forte, estar em uma vitrine melhor o colocou na briga por uma vaga na seleção principal argentina.
Com Dibu Martínez atuando mais vezes, o treinador de goleiros, Martínez Tocalli, que já conhecia Dibu de seus tempos nas categorias de base, começou a se interessar pela evolução de sua trajetória no exterior. E foi assim que o nome do goleiro expatriado começou a circular nas listas de convocados pelo técnico Lionel Scaloni.

“Quando eu olho para trás, muitas vezes choro quando penso por tudo o que passei e o que consegui”, disse. “Agora, quero desfrutar este momento e fazer o meu papel contra a grande seleção que é Espanha. Temos que nos preparar com alegria e dar tudo o que podemos em campo.” Já ao lado de Messi, Maradona e Mario Kempes no panteão dos grandes heróis da seleção da Argentina, Dibu Martínez ainda tem sede de glória.

 

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