Nova York – Na entrevista coletiva que as seleções concedem aos jornalistas antes da final de uma Copa do Mundo, geralmente cabe aos capitães acompanharem os técnicos. Contudo, nesta sexta-feira, dia 17, não foi Lionel Messi quem esteve diante das câmeras e microfones no Javits Center, o moderno centro de convenções de Nova York, onde a Fifa organizou o ritual. Quem apareceu para conversar com a imprensa, com a tatuagem da bandeira argentina na sua nuca, foi um outro herói do país: Emiliano Dibu Martínez, o homem que, literalmente, agarrou o título mundial de 2022 no Catar e que assumiu viver uma Copa muito melhor agora.

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Ele foi crucial no jogo contra a Holanda, nas semifinais. Durante a tensa disputa por pênaltis, defendeu as cobranças de Virgil van Dijk e Steven Berghuis. Na decisão diante da França, o goleiro argentino teve outra atuação exuberante, apesar de ter sido vazado três vezes.

Dibu Martínez é um dos grandes pilares da seleção argentina na Copa do Mundo de 2026 / Reprodução

Dibu fez a defesa da Copa de 2022, solitário e impassível, diante do atacante Kolo Muani. Fechou o ângulo do gol, e defendeu uma bola impossível cara a cara no finalzinho da prorrogação da final. Depois, só para variar, foi decisivo mais uma vez na disputa por pênaltis. Ele pegou a cobrança do atacante Kingsley Coman e teve sorte, quando o volante Aurélien Tchouaméni bateu para fora, confirmando o tricampeonato mundial da Argentina.

Coração na ponta da luva

Imortalizado como herói nacional em seu país, na entrevista no Javits Center, “Dibu” mencionou o seu sacrifício pessoal para disputar o Mundial de 2026. “Joguei toda a competição com o meu dedo anelar da mão direita fraturado”, disse, mencionando a lesão sofrida no aquecimento momentos antes do início da final da Liga Europa, em Istambul. Mesmo sentindo dores, o goleiro atuou 90 minutos e foi um dos melhores da equipe na partida em que o Aston Villa venceu o Freiburg, da Alemanha, por 3 a 0.

Desta vez o seu espírito heroico poderia ter acabado mal. Martínez explicou que, após a lesão, consultou médicos ortopedistas nos Estados Unidos e Reino Unido, que concordaram que ele precisava de cirurgia para se recuperar adequadamente. “Todos os especialistas em mão que consultei me disseram que eu não estaria apto para jogar e que precisava fazer uma cirurgia: mas, se eu operasse, não ia poder jogar o Mundial”, disse.

Decidi arriscar e apesar de sentir dores todos os dias e de ter precisado me poupar de várias sessões de treinamento, valeu a pena.
Dibu Martínez

Segundo comentou Dibu, esse espírito de sacrifício não é apenas uma marca individual sua, mas de toda a equipe da Argentina. “Eu e os outros jogadores da seleção temos origens humildes, viemos de famílias onde ambos os pais trabalham, somos filhos de gente batalhadora… e mesmo quando as coisas ficam difíceis, sempre damos a volta por cima”, disse às vésperas de encarar mais uma final de Copa do Mundo.

A jornada do herói

A trajetória profissional de Emiliano Dibu Martínez serve para ilustrar o que ele próprio diz. Em 2009, quando tinha 16 anos e ainda era estudante, não pensou duas vezes quando aceitou a proposta do Arsenal para se mudar para Londres. Era o goleiro titular da seleção argentina sub-17 e seu talento tinha sido observado por um respeitável olheiro, Miguel Ángel Santoro, lendário jogador do Independiente, o clube onde Dibu atuava nas categorias de base, e que o recomendou aos dirigentes ingleses.

Dibu e sua história no futebol inglês até ser notado pelo técnico Lionel Scaloni para a seleção argentina / AFA

Na noite anterior à viagem para a Europa, sua mãe, Susana, e o irmão Alejandro, foram conversar com ele: em lágrimas, insistiram para Dibu não ir embora. Mas ele estava decidido a seguir adiante – a situação da família, com dificuldades para pagar as contas, não deixou outro caminho senão cruzar o oceano.

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A questão era que a concorrência no Arsenal era dura, com goleiros bons e mais experientes do que o jovem argentino promissor, como o colombiano David Ospina e o alemão Bernd Leno. Sem espaço no time titular, restou a “Damián”, como ficou conhecido naqueles tempos (é o seu primeiro nome), zanzar por clubes pequenos, como Oxford, Sheffield United, Wolverhampton, entre outros, durante os cerca de oito anos em que ficou encostado no time de Londres.

Sucesso no Aston Villa

Dibu Martínez pensou em voltar para a Argentina, mas não desistiu. Até que em 2020 a esperada oportunidade veio. Em busca de um goleiro, o Aston Villa, o tradicional clube da cidade de Birmingham, se interessou por ele. Além de conquistar o seu espaço e títulos em uma equipe forte, estar em uma vitrine melhor o colocou na briga por uma vaga na seleção principal argentina. Com Dibu atuando mais vezes, o treinador de goleiros Martínez Tocalli, que já o conhecia das categorias de base, começou a se interessar pela evolução de sua trajetória. E foi assim que o nome do goleiro começou a circular nas listas de convocados de Lionel Scaloni.

“Quando eu olho para trás, muitas vezes choro ao pensar por tudo o que passei e o que consegui”, disse. “Agora, quero desfrutar deste momento e fazer o meu papel contra a grande seleção que é Espanha. Temos de nos preparar com alegria e dar tudo o que podemos.”

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