O fantasma de Tite voltou a rondar o Corinthians. E não há imagem mais simbólica da atual instabilidade do clube do que esse espectro aparecendo justamente agora, quando Dorival Júnior vive seu momento mais frágil desde que assumiu o comando.
Bastou Tite declarar publicamente que está pronto para voltar à ativa, recuperado do período em que se afastou para tratar questões emocionais e mentais, para que figuras influentes do clube, conselheiros, ex-dirigentes e boa parte da torcida voltassem a admitir — alguns até com entusiasmo — a hipótese de tê-lo outra vez no comando técnico. Talvez isso diga mais sobre Dorival do que sobre Tite.

A coincidência não é acidental
O Corinthians atravessa um trecho de estrada esburacada, cheio de falhas técnicas, escolhas equivocadas e um futebol que, em vez de evoluir, parece estacionado. A atuação medonha contra o Cruzeiro, no Mineirão, serviu como um gatilho para intensificar o clima de desconfiança que já vinha crescendo silenciosamente. O time foi atropelado, superado em todas as dimensões essenciais do jogo, expondo não apenas limitações do elenco, mas sobretudo a falta de rumo que marca o trabalho de Dorival.
A partir daí, juntou-se a fome com a vontade de comer: Tite acenando ao mercado e Dorival, mais uma vez, colocado no centro de um debate sobre sua continuidade, um debate que ele jamais conseguiu silenciar porque nunca caiu de fato nas graças da torcida.

Mais razão, menos emoção
Mas o movimento em curso exige uma leitura mais cautelosa, mais fria e menos emocional — algo raro no ambiente corintiano. Flertar com a ideia de trocar o comando agora, por mais sedutora que seja a figura de Tite, esbarra em dois riscos graves. O primeiro é desestabilizar ainda mais um trabalho que já é instável por natureza, mas que ainda tem jogos e objetivos importantes pela frente. Faltam três rodadas para o fim do Brasileirão e pelo menos dois compromissos na Copa do Brasil.
Ainda há tempo e espaço para salvar o ano, ainda que o clube precise, inevitavelmente, de uma reformulação quase total para 2026. O segundo risco é cair na armadilha de idealizar Tite como solução imediata — ignorando que, excetuando a última recusa justificada por questões de saúde, o treinador já disse “não” ao Corinthians mais de uma vez. E em todas essas ocasiões deixou claro, ainda que nas entrelinhas, que avaliava opções mais promissoras antes de bater à porta do clube.
DNA corintiano
É inegável que Tite tem identidade com o Corinthians, conhece o ambiente, entende o DNA competitivo do clube, sabe conviver com as pressões e, sim, seria capaz de fazer a diferença num projeto consistente para a próxima temporada. Mas transformar esse aceno inicial em pressão explícita sobre Dorival agora seria repetir velhos erros — e talvez cometer um novo.
Em vez de preparar o terreno para um 2026 mais lúcido, mais planejado e menos sujeito a impulsos, o Corinthians corre o risco de jogar sua temporada por terra e entregar o treinador atual à guilhotina em nome de uma ilusão momentânea.
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O Corinthians precisa decidir se quer ser um clube guiado por estratégia ou por sobressaltos. Tite pode, sim, ser parte de um futuro projeto, mas não pode ser o gatilho para um colapso imediato. O fantasma está aí, rondando. Cabe ao clube escolher se vai deixar que ele assombre — ou que ilumine — o caminho que vem pela frente.





