Entre a boa atuação da seleção brasileira de Carlo Ancelotti no amistoso contra Senegal — vitória por 2 a 0, na tarde deste sábado, em Londres — e a sonolência típica das datas Fifa de fim de ano, talvez o acontecimento mais relevante para o futebol brasileiro tenha acontecido longe do gramado inglês. Foi nos Bálcãs, em um país de pouco mais de 2,8 milhões de habitantes, sem tradição esportiva, grandes estrelas, centros de formação competitivos: a Albânia, de Sylvinho, está prestes a escrever história.
E, sim, talvez seja este o fato mais importante para o futebol brasileiro neste período. Porque, se completar o feito, Sylvinho deverá ser o único treinador brasileiro na Copa do Mundo de 2026. Até aqui, nenhuma edição de Mundial deixou de contar com um técnico nascido no Brasil — seja naturalmente à frente da nossa seleção, seja exportando conhecimento para outras seleções. Parreira, Joel Santana, Felipão, o velho Tim… sempre houve alguém para representar o País do Futebol à beira do campo. Portanto, desta vez, a sobrevivência dessa linhagem talvez esteja nas mãos de um treinador que, aqui, muitos preferiram ridicularizar.

A dimensão do que Sylvinho está prestes a realizar é gigantesca. A Albânia, que ele já havia levado à última Eurocopa, agora caminha firme para um feito ainda maior: disputar uma Copa do Mundo. Tirar leite de pedra é pouco para definir o que ele fez nas Eliminatórias europeias. Colocou a seleção albanesa no segundo lugar da chave, garantiu presença na repescagem e transformou o país em um estado permanente de euforia — algo inédito para uma geração inteira de torcedores que jamais se permitiu sonhar tão alto.
Ele era piada no Brasil
E pensar que, no Brasil, ele foi tratado quase como piada. Em sua única experiência como técnico no país, no Corinthians, Sylvinho virou alvo fácil da crítica pela crítica. Da condução de palestras pré-jogo ancoradas em um discurso inflamado, quase teatral, ao estilo de jogo que às vezes parecia confuso, tudo nele serviu de munição para seus algozes. Formado no próprio clube, não resistiu aos maus resultados e caiu após uma sequência ruim — a exceção que se recorda é uma boa exibição contra o Palmeiras, irônico símbolo do que poderia ter sido um ponto de virada e não foi.
Pois é justamente agora, longe de casa, que Sylvinho encontra o respeito que aqui nunca lhe ofereceram. E conquista algo mais raro ainda: reconhecimento técnico de valor imensurável em nível Internacional. É a consagração de uma retomada — e talvez de uma reparação.
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Se a Albânia realmente chegar à Copa de 2026, não será apenas um triunfo local. Será também um lembrete incômodo ao futebol brasileiro: enquanto discutimos se ainda formamos treinadores capazes de competir no mais alto nível, um brasileiro, rejeitado no seu país, pode entrar em campo como responsável por uma das histórias mais improváveis e edificantes do torneio da elite do futebol.





