Não foi apenas uma vitória. Foi a confirmação de um projeto. Quando Ferran Torres acertou o violento chute de perna esquerda, aos 40 segundos do segundo tempo da prorrogação, transformando em gol a assistência de cabeça de Nico Williams, o MetLife Stadium explodiu. Não era somente o gol do título. Era o instante em que dezesseis anos de planejamento, convicção e fidelidade a uma ideia de jogo recebiam sua recompensa máxima. A Espanha é bicampeã do mundo. E ninguém, rigorosamente ninguém, pode dizer que o destino foi injusto.

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Esta geração representa a evolução natural daquela que encantou o planeta em 2010. O velho tiki-taka, que um dia teve Xavi, Iniesta, Busquets e companhia como maestros, reaparece agora renovado, mais vertical, mais intenso, mais agressivo e igualmente apaixonado pela bola. Um tiki-taka 2.0 que tem em Rodri seu cérebro, em Lamine Yamal, Nico Williams, Dani Olmo e tantos outros seus artistas e em Luis de la Fuente o grande arquiteto.

Espanha Rodri ergue o troféu de campeão do mundo
Capitão da Espanha e eleito o´Bola de Ouro’ da Copa do Mundo, Rodri ergue o troféu que consagra o futebol coletivo / Fifa

Espanha bicampeã

Nada disso nasceu nesta Copa. De La Fuente conhece muitos desses jogadores desde as categorias de base da seleção espanhola. Foi campeão europeu sub-19, campeão europeu sub-21, conquistou a Liga das Nações, formou talentos, consolidou conceitos e chegou ao Mundial com um time pronto para transformar a posse de bola em ouro. A campanha apenas confirmou isso. Foram oito partidas, apenas um gol sofrido e uma superioridade tática poucas vezes vista numa Copa do Mundo. A Espanha terminou a competição mostrando que controlar a bola continua sendo a maneira mais eficiente de controlar o adversário.

A final foi a síntese perfeita dessa filosofia. Os primeiros minutos chegaram a sugerir uma noite movimentada. Lamine Yamal entrou duas vezes na área logo de cara. Num lance, teve o chute desviado; no outro, cruzou rasteiro depois de outra arrancada. Mas a decisão rapidamente tomou outro rumo. A Espanha passou a monopolizar a posse, empurrando a Argentina para trás, enquanto a equipe de Lionel Scaloni sobrevivia como podia.

Durante todo tempo regulamentar, a Scaloneta simplesmente não conseguiu finalizar uma única vez. Messi só ligou o modo Messi depois que saiu o gol espanhol. Foi o retrato de uma seleção que já carregava nas pernas o desgaste de uma campanha heroica, construída com quatro viradas e três partidas decididas depois dos noventa minutos.

Herói improvável

Do outro lado, faltava apenas transformar superioridade em gol. Dani Olmo encontrou Oyarzabal com um passe de calcanhar que arrancou aplausos das arquibancadas, mas Emiliano Martínez voltou a salvar a Argentina. Dibu era a grande esperança da Argentina para levar a decisão para os penais. A estatística traduzia o massacre. Aos 33 minutos do segundo tempo, eram dez finalizações espanholas contra nenhuma argentina. Emiliano Martínez já acumulava sete defesas, enquanto Messi, completamente isolado, havia participado do jogo com apenas doze passes certos.

Ainda assim, a resistência argentina permanecia viva. Muito graças ao goleiro. Nos acréscimos, Enzo Fernández recebeu o segundo cartão amarelo ao atingir Cubarsí e deixou a Argentina com um jogador a menos justamente para a prorrogação. Era o golpe que faltava para desmontar uma equipe que já atuava no limite físico.

Messi fecha o ciclo na Argentina com a decepção de não ter conseguido o seu título em três finais disputadas / Afaseleccion

A punição veio imediatamente. Com apenas quarenta segundos da segunda etapa do tempo extra, Nico Williams apareceu no segundo poste, escorou de cabeça para trás e Ferran Torres chegou batendo de primeira, com violência, sem qualquer possibilidade de defesa para Dibu. Enfim, o gol que parecia inevitável. Até o apito final, a Espanha completaria números impressionantes: vinte finalizações, onze defesas de Emiliano Martínez e 740 passes trocados, contra apenas 350 da Argentina. Uma superioridade absoluta.

Messi encerra ciclo

A despedida de Lionel Messi também merece reverência. O último tango do camisa 10 termina sem a segunda Copa do Mundo, mas não sem grandeza. Aos 39 anos, enfrentando marcações dobradas durante todo o torneio, marcou oito gols, encantou novamente o planeta e, durante alguns dias, chegou a ocupar o posto de maior artilheiro da história das Copas, com 21 gols, antes de ser ultrapassado por Kylian Mbappé na disputa do terceiro lugar.

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Sai derrotado na final. Sai, porém, com o prestígio intacto. A Bola de Ouro acabou nas mãos de Rodri, símbolo máximo da organização espanhola, capitão silencioso e cérebro de um time que praticamente não ofereceu espaços durante toda a competição. A Espanha, de novo campeã, enfim fez justiça ao futebol.

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