A maior Copa do Mundo da história terminou com uma imagem que o futebol levará para o futuro. De um lado, Lionel Messi, aos 39 anos, derrotado na tentativa de conduzir a Argentina ao segundo título consecutivo. Antes dele, Cristiano Ronaldo, aos 41 anos, já havia deixado o torneio depois da eliminação de Portugal. Entre os dois gigantes que dominaram uma época, apareceu Lamine Yamal: 19 anos, estreante em Mundiais e campeão pela Espanha, que acabou com o sonho dos dois países e também da França, de Mbappé, que terminou como artilheiro e maior goleador na história das Copas e não encerra o seu ciclo como capitão da França.
Não foi Lamine quem marcou os gols que derrubaram os dois veteranos. Mikel Merino decidiu contra Portugal, aos 46 minutos do segundo tempo, nas oitavas de final. Ferran Torres fez, no primeiro minuto do segundo tempo da prorrogação, o gol que deu à Espanha a vitória por 1 a 0 sobre a Argentina. Mas o jovem ponta tornou-se o símbolo da seleção que fechou as últimas páginas mundialistas de Cristiano Ronaldo e de Messi. A passagem de bastão não ocorreu por um gesto individual. Foi construída pelo roteiro inteiro da competição.

Lamine vira coadjuvante
Lamine não precisou decidir a final para ocupar o centro simbólico dessa história. Ele chegou ao torneio como principal representante de uma geração que não cresceu escolhendo entre Pelé e Maradona, mas discutindo Messi ou Cristiano. Durante mais de 15 anos, os dois transformaram a excelência em rotina, empilharam gols e conduziram uma rivalidade que atravessou Barcelona, Real Madrid, Liga dos Campeões, seleções e prêmios individuais.
Somados, Messi e Cristiano conquistaram 13 Bolas de Ouro: oito para o argentino e cinco para o português. Entre 2008 e 2023, ficaram com 13 das 15 edições realizadas. Apenas Luka Modrić, em 2018, e Karim Benzema, em 2022, interromperam o domínio; o prêmio de 2020 foi cancelado. Por isso, a saída de ambos do palco mundial não representa somente a despedida de dois artilheiros. Marca o encerramento do maior duopólio individual já visto pelo futebol.
Lamine assume a geração Messi/CR7?
Lamine surge exatamente nesse espaço. A comparação é inevitável, sobretudo por sua ligação com o Barcelona e pela famosa fotografia em que aparece ainda bebê ao lado de Messi, durante uma ação beneficente em 2007. Mas transformá-lo imediatamente no sucessor dos dois seria reduzir carreiras extraordinárias a uma coincidência de calendário. O espanhol herdou o palco; ainda terá de construir a longevidade.
Garoto quase imbatível
Os números mostram que sua caminhada começou em velocidade rara. Antes da final, a Federação Espanhola contabilizava 32 partidas de Lamine pela seleção principal, com 24 vitórias, sete empates e apenas uma derrota. O único revés ocorreu diante da Colômbia, por 1 a 0, em amistoso disputado em março de 2024. Com o triunfo sobre a Argentina, ele chegou à 33ª apresentação e completou 28 jogos consecutivos sem perder pela Espanha. Em confrontos oficiais, continua invicto.
Também há uma diferença essencial entre o começo de Lamine e as trajetórias mundialistas dos veteranos. Messi precisou disputar cinco Copas para levantar a taça, em 2022. Cristiano encerrou seis participações sem chegar à decisão. Lamine foi campeão logo na estreia, seis dias depois de completar 19 anos. Isso não o coloca acima dos dois, mas oferece uma vantagem que nem mesmo eles tiveram: iniciar a história no principal campeonato do planeta já no ponto mais alto do pódio.

Sinfonia do adeus
A Copa de 2026, ampliada para 48 seleções e 104 partidas, buscou vender a ideia de grandeza em cada detalhe. No fim, porém, sua imagem mais poderosa não dependeu do gigantismo da organização. Coube a três jogadores representar o movimento natural do futebol. Cristiano deixou o torneio nas oitavas. Messi caiu na final. Lamine levantou a taça.
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O futuro não precisa apagar o passado para começar. Lamine Yamal ainda está distante de reproduzir duas décadas de protagonismo, centenas de gols e 13 Bolas de Ouro. Mas saiu de sua primeira Copa com aquilo que define os grandes candidatos a ocupar uma época: talento, título e tempo pela frente. Enquanto as cortinas se fechavam para Messi e Cristiano Ronaldo, o garoto espanhol descobria que o maior palco do mundo já estava iluminado para ele.





