O futebol tem dessas coisas e ninguém consegue explicar sob a luz da razão. Só ele é capaz de escrever roteiros com tamanha carga de ironia, emoção e lirismo. Em plena semifinal do Super Mundial de Clubes da Fifa, disputada nesta terça-feira sob o sol escaldante de New Jersey, diante de mais de 70 mil torcedores no MetLife Stadium, o Fluminense viu seu sonho ser adiado por um personagem improvável — ou, talvez, inevitável. O nome dele é João Pedro. Um craque de bola nascido e criado em Xerém, a fábrica de talentos do próprio Fluminense.
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Foi dele o golpe duplo que fez ruir a esperança tricolor. Dois chutes de rara precisão, como se fossem tacadas de bilhar. Dois gols que classificaram o Chelsea para a final. E, em respeito ao clube que o revelou, João Pedro não comemorou. O gesto nobre do agora algoz tricolor engrandeceu ainda mais sua atuação impecável. Estreante recente no Chelsea, já havia marcado contra o Palmeiras nas quartas. Agora, com mais dois tentos diante de seu clube formador, justificou — com juros e correção poética — o investimento milionário feito para tirá-lo do Brighton.

Por mais doloroso que tenha sido, há beleza até mesmo nesse revés. E há motivo para orgulho. Num 8 de julho — justamente na data em que o futebol brasileiro revive, ano após ano, o trauma do 7 a 1 diante da Alemanha em 2014 —, o Fluminense mostrou dignidade e grandeza. Foi valente diante de um gigante europeu cujo orçamento é vinte vezes superior. Jogou de igual para igual. Caiu, sim. Mas caiu lutando.
Bola na mão na área do Chelsea
Depois do primeiro gol de João Pedro, aos 17 minutos do primeiro tempo, o Tricolor teve duas grandes chances para virar o jogo. Aos 25, o predestinado Hércules finalizou com estilo, mas viu Cucurella salvar sobre a linha. Aos 34, o árbitro marcou pênalti em toque de mão do zagueiro Chalobah, mas o VAR interveio e o lance foi anulado. A decisão causou controvérsia, principalmente à luz do protocolo usado no Brasil, onde a penalidade teria sido mantida. Fica a dúvida: teria sido influência da pressão que a diretoria do Chelsea fez à Fifa, após dois pênaltis semelhantes marcados contra os ingleses neste mesmo torneio?
O calor castigava. As chances perdidas pesavam. O Fluminense voltou do intervalo mais nervoso, menos fluido. E o Chelsea, senhor da posse e do espaço, aproveitou para impor sua incontestável superioridade. João Pedro recebeu no contra-ataque e, com outro chute preciso e frio, definiu o jogo. A partir daí, não dá para dizer que o Flu jogou a toalha. Mas o time já não era o mesmo. Renato Gaúcho tentou reorganizar com substituições, mas a equipe não voltou a se encaixar como nos jogos anteriores. O Chelsea, maduro, ainda criou mais duas chances claras. Uma delas só não entrou porque Thiago Silva — símbolo de resistência, aos 40 anos — salvou em cima da linha com Fábio já vencido.
O Brasil para na semifinal
Ficamos nas semifinais. Mas saímos maiores. Saímos do Mundial com um legado. O futebol brasileiro, tantas vezes tido como ultrapassado, reacendeu sua chama de protagonismo nesta jornada. Foi emocionante. Foi vibrante. Foi digno. Mostramos ao mundo que ainda estamos vivos — mesmo quando os ventos sopram do outro lado do oceano.

E talvez nada resume melhor esse espírito do que o discurso equilibrado de Renato Gaúcho na preleção antes do jogo. Com um misto de orgulho e entrega, disse aos jogadores: “Todo mundo está vendo vocês. Vão lá e joguem futebol. Gastem a bola, gostem da bola. Divirtam-se.”
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O resultado não veio. A noite será mal dormida. A sensação de que dava para ir além vai assombrar o coração dos tricolores por um bom tempo. Mas a sensação que fica é a de missão cumprida. Com louvor. Não há porque lamentar o resultado final. Porque o futebol é mesmo assim: tem seus algozes, suas ironias — mas também sua poesia. E hoje, até na dor, ela estava lá, fazendo a gente renovar nosso amor pelo jogo de bola.





