A Copa do Mundo de 2010 nasceu antes mesmo de a bola rolar. Nasceu no som das vuvuzelas, na imagem de uma África do Sul que queria se apresentar ao planeta para além das cicatrizes do Apartheid, na presença simbólica de Nelson Mandela, líder na luta contra a segregação racial, e na sensação de que o futebol, enfim, completava uma volta geográfica que demorou demais. Depois de Europa, América do Sul, América do Norte e Ásia, o Mundial chegava ao continente africano. Era a primeira Copa da África. E isso, por si só, já colocava 2010 em um lugar especial na história.
Mas a Copa da África também foi a Copa da contradição. O continente que recebia o torneio com festa não conseguiu colocar uma seleção na semifinal. Nas quartas de final, Gana chegou perto, muito perto, até a bola de Asamoah Gyan explodir no travessão contra o Uruguai, no último suspiro da prorrogação, depois do toque de mão de Luis Suárez. Foi talvez o instante mais cruel do torneio. O sonho africano não avançou, mas o Mundial já havia deixado sua marca: o futebol tinha voltado os olhos para Johanesburgo, Durban, Pretória, Cidade do Cabo, Porto Elizabeth. A Copa já não pertencia apenas aos velhos centros de poder.

Copa de 2010 consagra a Fúria
Dentro de campo, quem melhor traduziu a alma daquele torneio foi a Espanha. Não porque tenha desfilado do início ao fim. Pelo contrário. A campeã começou caindo. Na estreia, perdeu por 1 a 0 para a Suíça, em Durban, resultado que parecia uma pegadinha com uma geração acostumada a tratar a bola como propriedade privada. A Espanha de Xavi, Iniesta, Busquets, Xabi Alonso, David Villa e Casillas chegava embalada pelo título da Euro de 2008, mas descobriu logo na largada que a Copa não se curva à estética.
A partir dali, a equipe de Vicente del Bosque virou a chave sem abandonar sua identidade. Venceu Honduras, superou o Chile, passou por Portugal, Paraguai e Alemanha, sempre em jogos duros, quase sempre por margem mínima. A posse de bola espanhola não era ornamento. Era método de controle, mecanismo de defesa, paciência elevada à categoria de estratégia. A Espanha fez apenas oito gols em sete jogos, mas sofreu só dois. Foi campeã menos pelo brilho avassalador e mais pela autoridade silenciosa de quem aceitava ganhar no detalhe.
Na final, contra a Holanda, a Copa de 2010 encontrou sua imagem mais áspera. De um lado, a Espanha que queria consagrar uma era. Do outro, uma Holanda que carregava uma maldição pesada demais para ignorar. Vice em 1974, vice em 1978, a Laranja chegava à terceira decisão tentando encerrar a dívida de sua própria história. Sneijder, Robben, Van Persie e companhia tinham talento, competitividade e casca. Faltou grandeza no momento em que a final pediu mais bola e menos atrito.
Brilho de Iniesta
O jogo foi truncado, nervoso, cheio de faltas e cartões. Robben teve a chance que poderia mudar tudo, cara a cara com Casillas. O goleiro espanhol salvou com a perna e, naquele lance, talvez tenha começado a escrever o gol que Iniesta faria depois. Aos 116 minutos, quando os pênaltis já pareciam inevitáveis, Fàbregas encontrou Iniesta, e o craque do Barcelona encontrou a eternidade. Espanha 1 a 0. A Fúria entrava no seleto grupo de campeãs mundiais como a oitava seleção a levantar a taça. Até ali, a lista tinha Brasil, Itália, Alemanha, Uruguai, Argentina, Inglaterra e França. Com a Espanha, a Copa passava a ter oito países campeões em 19 edições.
Para a Holanda, restou a repetição da dor. Três finais, três derrotas. Em 1974, diante da Alemanha Ocidental. Em 1978, contra a Argentina. Em 2010, contra a Espanha. A diferença é que, desta vez, a equipe holandesa não saiu apenas lamentando a chance perdida. Saiu também com a sensação de que havia traído parte de sua tradição. A Holanda que ensinou o mundo a admirar o futebol total agora perdia uma final marcada mais pela dureza do que pela inspiração.

Dunga, versão treinador
O Brasil, por sua vez, viveu uma Copa que parecia escrita para fechar o ciclo mais complexo da carreira de Dunga. Em 1990, ele foi símbolo de uma seleção eliminada pela Argentina de Maradona e Caniggia, um time visto no Brasil como pragmático demais, europeu demais, pouco brasileiro. Quatro anos depois, voltou como capitão do tetra, levantou a taça nos Estados Unidos e transformou a própria imagem. Em 2010, retornou à Copa como treinador, defendendo uma seleção forte, competitiva, vencedora da Copa América e da Copa das Confederações, mas desconfiada por parte da torcida.
O Brasil de Dunga não era frágil. Tinha Júlio César, Lúcio, Maicon, Gilberto Silva, Kaká, Robinho, Luís Fabiano. Passou em primeiro no grupo, eliminou o Chile nas oitavas e fez um primeiro tempo muito bom contra a Holanda nas quartas, com gol de Robinho. Mas o segundo tempo em Porto Elizabeth virou ruína. Falha de Júlio César e Felipe Melo no empate, gol de Sneijder na virada, expulsão de Felipe Melo, descontrole emocional e eliminação por 2 a 1. Dunga saiu queimado porque sua proposta dependia demais do resultado. Quando a vitória escapou, sobrou pouco afeto para protegê-lo.

Fracasso de campeãs
A Copa também foi impiedosa com os gigantes cansados. Itália e França, campeã e vice de 2006, não passaram da fase de grupos. A França implodiu. Fez apenas um ponto, viveu crise interna, greve de treino, ruptura pública e eliminação melancólica. A Itália foi diferente, mas igualmente dolorosa. Sem vencer uma partida, ficou atrás de Paraguai, Eslováquia e até da invicta Nova Zelândia no Grupo F. O ciclo de 2006 envelheceu mal, e a derrota por 3 a 2 para a Eslováquia escancarou o fim de uma geração.
No fim, a Copa de 2010 foi menos exuberante do que histórica. Não teve um campeão goleador, não teve um Brasil protagonista, não teve o encanto africano levado até as semifinais. Mas teve uma fronteira rompida, uma nova campeã, uma Holanda novamente derrotada no último degrau, um Dunga devolvido ao tribunal da opinião pública e duas finalistas de 2006 eliminadas antes do mata-mata.
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Foi a Copa em que a Espanha descobriu que o caminho mais curto para a eternidade podia ser feito de paciência. E foi a Copa em que o mundo ouviu, em volume máximo, que a África também era casa do futebol.





