Na noite deste sábado, dia 27, a seleção do Irã caiu fora da disputa da Copa do Mundo de 2026 com requintes de crueldade. Já no tempo adicional, a poucos segundos do apito final, um gol do atacante austríaco Sasa Kalajdzic, de repente, eliminou os iranianos e classificou os europeus. E assim, graças ao empate por 3 a 3 entre Áustria e Argélia, apenas o Senegal, das equipes classificadas em terceiro lugar que somaram três pontos, conseguiu alcançar a fase dos mata-matas graças ao saldo de gols mais favorável.
O fracasso do Irã neste Mundial encerra um capítulo tenso entre os dirigentes da federação de futebol do país e o governo norte-americano de Donald Trump. Desde fevereiro, o Irã de um lado e os Estados Unidos – e Israel – do outro trocaram farpas diplomáticas e bombas, ecoando um conflito que ainda não se resolveu. A ponto de os dirigentes iranianos ameaçarem um boicote à Copa do Mundo. Foi colocada na mesa até mesmo uma proposta para transferir os jogos do país para o México na fase de grupos. Não deu certo.

O impasse foi encerrado após a intervenção pessoal do presidente da Fifa, o suíço Gianni Infantino, e garantias do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que “o Irã era bem-vindo para competir no torneio”. Assim, todas as partes envolvidas chegaram a um acordo e os dirigentes iranianos toparam embarcar a delegação para a América. Mas o que se viu depois disso foi um total desrespeito ao país na competição, com a conivência da Fifa. Essa história chega ao fim com a eliminação do país na Copa.
Logística em jogo
Entretanto, assim que desembarcou no continente, a rotina dos jogadores e comissão técnica iranianos viraram uma corrida de obstáculos, tantas e tamanhas eram as restrições impostas pelo governo norte-americano. Elas chegaram a tal ponto que se tornou inviável a execução do plano original dos cartolas do Irã de ter a base de treinamentos no Complexo Esportivo Kino, na região de Tucson, no Arizona.

Parte desse impasse foi solucionado com a oferta do governo do México de que a delegação do Irã mudasse de local da concentração – e fosse se estabelecer em Tijuana, cidade logo depois da fronteira com os Estados Unidos, a algumas centenas de quilômetros de Los Angeles.
Porém, permaneceu a ordem para restrições de permanência e de circulação de jogadores, membros da comissão técnica e dirigentes: eles poderiam ficar no território norte-americano somente durante 24 horas, o que virou um quebra-cabeça para organizar os deslocamentos nos dias de jogos em Los Angeles e Seattle, cidades nas quais o Irã atuou. Sem contar que alguns dirigentes tiveram negado os seus pedidos de vistos de entrada.
“Fomos a seleção mais oprimida desta Copa do Mundo”, disse o técnico iraniano Amir Ghalenoei. “Enquanto as outras seleções puderam preparar-se em condições normais, estes transtornos roubaram nosso tempo para podermos fazer o mesmo: o país-anfitrião nos tratou de uma forma muito injusta.”
Tensão sem fim
Fora de campo, o ambiente nas arquibancadas também foi tenso. Nas partidas da seleção iraniana em Los Angeles, contra Bélgica e Nova Zelândia, e em Seattle, para enfrentar o Egito, sobrou confusão. A exemplo do que já havia acontecido no Mundial de 2022, no Catar, os jogos viraram uma oportunidade para grupos de manifestantes organizarem demonstrações contra o regime dos aiatolás. Foram exibidas, ostensivamente, bandeiras e camisetas iranianas dos tempos em que o país foi governado pelos xás da dinastia Pahlevi. Ainda, durante a execução do hino nacional iraniano, centenas de emigrantes iranianos simplesmente viravam as costas como forma de protesto.
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Todo esse clima ruim gerou ainda mais frustração entre os dirigentes da Federação Iraniana de Futebol com os Estados Unidos e também com a Fifa, conovente nessa história. Logo após a eliminação do país na Copa do Mundo, a entidade publicou um comunicado nas redes sociais, queixando-se do “tratamento desigual” que sua delegação recebeu nos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que agradecia a hospitalidade e o “respeito recebido do povo e autoridades mexicanas”.
Por parte dos iranianos será difícil esquecer toda a frustração que sentiram durante o Mundial de 2026. “Esta Copa do Mundo foi um desastre. Tivemos de lutar contra tudo aqui”, disse Mehdi Taremi, atacante e capitão do time.
Carta do Irã após eliminação
Nós viemos do IRÃ. Viemos de uma terra que, há milhares de anos, coloca a honra acima da vitória. Para nós, o futebol não é apenas uma competição por resultados. É um teste de caráter. Talvez seja possível conquistar pontos de muitas maneiras, mas o respeito não. Talvez uma equipe possa avançar de fase, mas somente por meio da justiça e da honra alguém pode permanecer de cabeça erguida diante da história. O fair play não é apenas uma linha nas regras do futebol; é a alma do jogo. Obrigado, Seattle, pela hospitalidade. E obrigado a todos os iranianos que deram seus corações, suas vozes e todo o seu ser pelo Irã. IRÃ, sempre de cabeça erguida.





