Nova York — Desde 2006, o Brasil não perde em Copas do Mundo para rivais “pequenos”. Não cai para azarão, não tropeça diante de uma seleção ingênua, não é eliminado por adversário sem história. O Brasil tem caído para equipes organizadas, frias e capazes de explorar seus erros no momento mais caro do Mundial. Essa é a síntese das últimas cinco eliminações brasileiras em Copas do Mundo. O Japão não pode ser mais considerado um time nanico. Longe disso. A seleção nipônica é muito organizada. E isso faz ligar um alerta no Brasil, sobretudo pelo fracasso das duas últimas edições.
O mata-mata cobra um tipo de maturidade que o Brasil nem sempre conseguiu entregar. E não teve nos Mundiais de 2022 e 2018. A seleção pode ter mais talento, mais camisa e estrelas e mais obrigação. Mas, quando o jogo aperta, tem perdido para adversários que erram menos, sofrem melhor e sabem transformar uma falha brasileira em sentença de morte. França, Holanda, Alemanha, Bélgica e Croácia fizeram isso contra o Brasil, cada uma à sua maneira.

Em 2006, o Brasil caiu diante da França nas quartas de final. Era uma seleção cheia de estrelas, com Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Adriano, Roberto Carlos e Cafu, para citar alguns, mas longe de ter a seriedade que se esperava dela. O time fracassou. E era melhor do que a sua versão campeã do mundo quatro anos antes.
‘Quarteto mágico’ naufragou em 2006
Aquele Brasil do “quarteto mágico” jogou pouco. Zidane comandou a partida, Henry fez o gol e a França venceu por 1 a 0. Bye-bye, Brasil! Foi a derrota do excesso de nomes e da falta de equipe. Mais ou menos como o time atual. Há bons jogadores sob o comando de Carlo Ancelotti, mas a equipe ainda não está pronta. O Brasil tinha brilhos individuais em 2026, mas não teve jogo coletivo para sustentar o favoritismo.
Quatro anos depois, na África do Sul, em 2010, a queda veio contra a Holanda. O Brasil começou bem a decisão das quartas de final: fez 1 a 0 com Robinho e parecia controlar o duelo. Mas perdeu o controle emocional depois do empate. Sneijder virou o jogo, Felipe Melo foi expulso e a seleção de Dunga caiu novamente. Foi uma derrota da desorganização mental. A Holanda esperou, resistiu e puniu quando o Brasil desmoronou.

Em 2014, como anfitrião, veio a maior ferida da história da seleção brasileira e que jamais será apagada. O 7 a 1 para a Alemanha não foi apenas uma derrota. Foi um desabamento de uma estrutura esportiva que se pensava soberana. Sem Neymar, lesionado na partida anterior, e sem Thiago Silva, suspenso, o Brasil entrou em campo emocionalmente exposto e taticamente vulnerável. A Alemanha fez cinco gols no primeiro tempo e transformou a semifinal no Mineirão, em Belo Horizonte, em trauma nacional. Nunca uma seleção tão grande pareceu tão pequena por 90 minutos. Foi uma fratura exposta com anos para cicatrizar. Ainda dói.
O gol contra de Fernandinho
A Copa seguinte repetiu o roteiro das quartas com um agravante: o medo de repetir o fracasso diante dos alemães. Em 2018, o Brasil perdeu por 2 a 1 para a Bélgica. O time de Tite foi punido por um primeiro tempo péssimo, sofreu um gol contra do volante Fernandinho, levou o segundo de De Bruyne e passou a correr atrás de dois gols que nunca aconteceram. Renato Augusto fez um e ficou nisso. Courtois fechou o gol e também fez a diferença. A Bélgica foi fria, organizada e cirúrgica.

Ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo com o futebol da seleção. A CBF sofria com denúncias e quedas de seus presidentes. O cenário político da entidade se misturou com o esportivo. Técnicos eram nomeados e demitidos. Nada dava certo. Os ciclos ruins e desorganizados reduziram o interesse do torcedor e desmotivaram os atletas nas convocações. Foi difícil também no Catar, em 2022.
A eliminação contra a Croácia talvez tenha sido a mais cruel depois do 7 a 1 de 2014. Neymar fez um golaço na prorrogação, colocou o Brasil na frente e parecia ter aberto a porta da semifinal. Era um avanço. Mas a seleção não soube fechar o jogo. A Croácia empatou com Petkovic e levou a decisão para os pênaltis. Rodrygo e Marquinhos erraram. Neymar nem chegou a bater. O Brasil perdeu uma Copa que parecia encaminhada, e viu a Argentina festejar com Messi.
Última derrota foi diante da Croácia
Essas cinco derrotas têm pontos em comum. O Brasil quase sempre chega com mais talento. Quase sempre como favorito. Mas encontra rivais que entendem melhor o valor do detalhe. A França, de Zidane, sabia controlar o ritmo. A Holanda, de Sneijder, soube provocar e esperar. Teve paciência para dar o bote. A Alemanha de 2014 foi uma máquina de precisão. Deu dó. A Bélgica de 2018 matou o jogo no espaço e na bobeada brasileira. A Croácia de quatro anos atrás suportou o sofrimento até chegar a sua chance de revidar.
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É por isso que o jogo contra o Japão, nesta segunda fase da Copa de 2026, não pode ser tratado apenas pelo tamanho da camisa. O retrospecto favorece o Brasil sempre. A história pesa. A seleção de Ancelotti bebe dessa água e tem alguns talentos, mais opções e obrigação de avançar. Na cabeça do jogador, o Brasil sempre tem de ganhar. Mas mata-mata não perdoa soberba nem falta de entrega. O Japão é organizado, disciplinado e já mostrou que sabe competir contra seleções maiores.

Depois da vitória sobre a Escócia, o Brasil parece ter encontrado uma cara. Vini Jr. assumiu o protagonismo da equipe. Matheus Cunha virou solução tática. Bruno Guimarães cresceu no ataque. Neymar voltou como opção, mas não como salvação. Ele continua reserva. Portanto, Ancelotti talvez tenha mais caminhos do que seus antecessores de alguns momentos recentes. Mas a Copa, a partir de agora, vai medir menos o brilho e mais a frieza.
Desde o penta em 2002, a seleção aprendeu da pior forma que talento não basta. E já se passaram 24 anos. Também é preciso saber sofrer, controlar a vantagem, escolher melhor os momentos do jogo e não oferecer ao rival exatamente aquilo que ele espera: chances. O Brasil não tem perdido para os pequenos. Tem perdido para times preparados para castigar seus erros. O Japão é o próximo teste para saber se essa lição finalmente foi apreendida.





