Um torcedor promete abater 22 vacas se o Brasil, de Neymar, for campeão da Copa do Mundo. Um motorista pinta o seu veículo com as cores da bandeira da Argentina e o rosto de Messi. As cenas descritas parecem ser de algum centro urbano da América do Sul. Mas não são. Elas fazem parte da capital de um país islâmico que ama o futebol sul-americano, em particular do Brasil e da Argentina. As cenas descritas são das ruas de Dhaka, capital de Bangladesh. As histórias desses personagens estão no curioso documentário Dhaka Vibra, do cineasta Rafael Bergamaschi.
A produção do filme passou a Copa de 2022 registrando a vida cotidiana e o fanatismo dos torcedores locais naquele país. O resultado final é um curioso filme de 50 minutos que demonstra como os ídolos brasileiros e argentinos são amados há mais de 15 mil quilômetros de onde nasceram. O diretor brasileiro explica que são raros os documentários que abordam o outro lado da sociedade bengalês. A maioria dos fimes é sobre catástrofes, enchentes e desastres industriais.

“Não é um filme só sobre futebol, mas um olhar diferente de igual para igual, buscando as semelhanças dos países”, analisa o cineasta ao The Football. A atração está disponível na plataforma Globoplay e demonstra como astros internacionais como Neymar e Messi são amados e referenciados tão longe de seus países por crianças, homens e mulheres em contextos culturais e econômicos muito diferentes.
Dificuldade com idioma
A equipe técnica permaneceu 35 dias em Bangladesh. Bergamaschi revela que o idioma foi um grande entrave para a realização do filme. A língua oficial do país é o bengali, idioma que foi fundamental na independência do país sobre o Paquistão em 1971. “Algumas vezes, tive de conduzir entrevistas sem ter certeza do que estava sendo dito”, reconhece o diretor. The Football conversou com Rafael Bergamaschi, diretor de Dhaka Vibra. Confira os melhores momentos da entrevista.
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The Football: Como surgiu a ideia de fazer um documentário sobre o fanatismo de torcedores de Bangladesh sobre o futebol sul-americano?
Rafael Bergamaschi: Eu morei em Nova York entre 2015 e 2022, e muitos dos motoristas de táxi por lá são de Bangladesh. Quando conversávamos, eles me contavam dessa rivalidade entre Brasil e Argentina… Que as pessoas brigavam, que era intenso, apaixonante. Fiquei com isso na cabeça por muito tempo, até decidir que tinha fazer um filme lá.
Quais foram as maiores dificuldades? Quanto tempo você ficou no país?
A maior dificuldade foi ter de tomar decisões sem conhecer o país, sem saber o que iria encontrar e com a Copa do Mundo acontecendo. Portanto, sem saber se o Brasil ou a Argentina seria eliminado a qualquer momento do Mundial do Catar. Fiquei 35 dias, conheci diversas cidades pelo país.

O idioma ou alguma barreira cultural te atrapalhou na realização do projeto?
O idioma, sim, claro, algumas vezes tive de conduzir entrevistas sem ter certeza do que estava sendo dito, muitas das nuances acabam perdidas na tradução.
O documentário tem um pouco mais de uma hora de duração. Você teve de deixar muitos personagens e histórias no corte final?
Tínhamos cerca de 100 horas de material filmado e terminamos com um filme que tem 50 minutos de duração…Então, muitas coisas legais ficaram para trás, mas é sempre para o melhor do filme. Tem uma entrevista com um policial de Feni, por exemplo, cidade que fica a 150 km de Dhaka, que estava muito bacana, fã do Brasil… Quem sabe não libero nas redes sociais depois?
Bangladesh fica muito longe do Brasil e da Argentina. Você tem ideia de como eles se tornaram tão fanáticos pelo futebol sul-americano?
Dois nomes começam a explicar essa história: Pelé e Maradona. Os feitos deles reverberaram por todo o país, semeando a idolatria dos locais. Depois disso, com as conquistas dos dois países em Copas, e a chegada de novos craques, como Zico, Ronaldinho, Messi… se tornou algo geracional, como acontece no Brasil com os clubes. Essa é uma das explicações desse amor.
Quais os personagens te marcaram mais? O riquixá (meio de transporte de tração humana onde uma pessoa puxa uma carroça de duas rodas para acomodar um ou dois passageiros) que é fanático pela Argentina é um deles?
Difícil escolher um personagem, cada um revela uma nuance diferente do país e dessa paixão inesperada. O Abu Tahir ‘Messi’, que tem o riquixá completamente pintado com as cores da Argentina, é com certeza um deles. A presença do antropólogo Mishu Ahasan é muito importante também, porque ele nos leva um pouco mais a fundo, fala sobre como Bangladesh é retratada geralmente pela mídia internacional apenas para falar sobre miséria… A conversa com ele é a chave do filme, que não é só sobre futebol, mas sobre olhar o diferente de igual para igual, buscando semelhanças.

Você tem mais projetos com o futebol? Acha que o cinema brasileiro pode explorar mais esse tema?
Acho que o cinema brasileiro faz um bom trabalho em celebrar o futebol, que tem filmes ótimos. Campo de Jogo, do Eryk Rocha, sobre futebol de várzea… ou Geraldinos, dirigido pelo Pedro Asbeg, que conta a história do fim da geral no Maracanã, por exemplo, são alguns dos meus favoritos. Eu não tenho nenhum outro projeto relacionado ao esporte no momento, mas tenho um filme sobre uma orquestra de música orgânica!





