A Espanha chegou ao mata-mata com uma dúvida pairando no ar: aquela máquina de posse, pressão e controle conseguiria transformar superioridade em placar? Contra a Áustria, a resposta veio sem suspense, sem sofrimento e sem necessidade de drama. No Los Angeles Stadium, em Inglewood, a equipe de Luis de la Fuente fez um treino de luxo em plena Copa do Mundo, venceu por 3 a 0 e confirmou a vaga nas oitavas de final como quem manda um recado: daqui para a frente, quem quiser tirar La Roja do caminho terá de jogar muito mais do que os austríacos jogaram.

Tudo sobre a Copa do Mundo

Não foi um massacre, desses de avalanche desde o primeiro minuto. Foi algo talvez até mais espanhol: domínio paciente, circulação de bola, controle territorial, troca de passes até o adversário perder o ar e, quando a brecha apareceu, golpe. A Áustria ofereceu pouca resistência. Tentou se organizar, tentou encurtar espaços, tentou sobreviver ao ritmo imposto pela Espanha, mas quase não incomodou Unai Simón. Passou boa parte da tarde correndo atrás da bola, defendendo cruzamentos, fechando linhas e esperando uma chance que nunca se transformou em ameaça real.

Espanha Oyarzabal comemora o primeiro gol
Oyarzabal comemora o primeiro dos seus dois gols sobre a Áustria com a bola sob a camisa como de ‘grávido’ / Sefutbol

Espanha na ginga de Yamal

O primeiro gol saiu aos 36 minutos, com Mikel Oyarzabal aparecendo como centroavante de manual para completar o cruzamento de Cucurella. Até ali, a Espanha já era melhor, já empurrava a Áustria para trás e já dava a sensação de que o placar era apenas uma questão de tempo. O gol fez justiça ao que se via em campo: um time confortável, maduro, sem pressa e sem pânico. A partir dali, a partida entrou no roteiro preferido dos espanhóis. Com a vantagem, La Roja passou a jogar ainda mais leve.

E leveza, nesse time, tem nome e sobrenome: Lamine Yamal. O garoto não marcou, mas foi um tormento. Cada vez que recebia pela direita, o jogo ganhava eletricidade. Cortava para dentro, ameaçava ir ao fundo, chamava dois marcadores, quebrava a cintura de quem se aproximava e dava à Espanha aquilo que tantas vezes faltou às versões mais burocráticas da seleção: improviso. Yamal não foi apenas um ponta aberto para cumprir função tática. Foi uma pergunta sem resposta para a defesa austríaca. Quando parecia cercado, saía. Quando parecia sem ângulo, inventava. Quando parecia controlado, desmontava o marcador no primeiro toque.

Pressão total em gols

No segundo tempo, a Espanha transformou o controle em sentença. Aos 21 minutos, após troca de passes e muita paciência, após cruzamento de Alex Baena, pela esquerda, Pedro Porro apareceu como elemento surpresa e fez o segundo, de cabeça, depois de boa construção coletiva. O gol foi simbólico. Não apenas por praticamente encerrar a partida, mas porque mostrou a amplitude de recursos deste time. A Espanha não depende só de Pedri, de Rodri, de Yamal ou de um momento genial de seus meias. Também machuca com laterais, inversões, ultrapassagens e gente chegando de trás. Porro, titularizado por De la Fuente, respondeu com gol e presença ofensiva.

O terceiro veio já no fim, aos 44 minutos, de novo com Oyarzabal, em parceria na assistência de Cucurella. Foi o fechamento perfeito para uma atuação de centroavante moderno: movimentação, leitura de espaço, frieza e oportunismo. Oyarzabal, que já havia sido protagonista na fase de grupos, voltou a aparecer no momento em que a Copa afunila. Dois gols em mata-mata não são detalhe. São senha de jogador que entende a temperatura do jogo grande.

Fim do jejum

A vitória também encerra um incômodo histórico. A Espanha não vencia um jogo de mata-mata de Copa do Mundo por mais de um gol desde 2 de julho de 1994, quando bateu a Suíça por 3 a 0 nas oitavas, nos Estados Unidos. Depois disso, vieram eliminações traumáticas, vitórias mínimas na campanha do título de 2010 e tropeços recentes contra Rússia e Marrocos nos pênaltis. Trinta e dois anos depois, novamente em solo americano, La Roja voltou a ganhar um mata-mata mundialista com folga no placar.

Há também a marca coletiva. Com o resultado, a Espanha chega a 35 jogos de invencibilidade na era Luis de la Fuente, igualando a lendária sequência da seleção entre 2007 e 2009. É um número que ajuda a explicar por que este time transmite tanta segurança. A Espanha pode empatar, pode administrar, pode até ser menos brilhante em alguns momentos, mas perdeu o hábito de perder. E, em Copa do Mundo, esse é um detalhe gigantesco.

Espanha Pedro Porro abraça Baena
Após gol com a assistência de Cucurella (24), Pedro Porro (esq.) festeja com Baena o segundo da Espanha / Sefutbol

Goleiro recordista

A outra marca é individual — e histórica. Unai Simón passou a ter a maior sequência sem sofrer gols na história das Copas. Com isso, ele passa por Walter Zenga, que tinha 517 minutos sem sofrer gols pela Itália em 1990. A ressalva importante: o arqueiro italiano fez tudo em uma única Copa, enquanto Unai Simón soma minutos da Copa passada com os jogos deste Mundial. Além deste recorde, o goleiro espanhol também deixou para trás a minutagem de Iker Casillas, ídolo do Real Madrid, campeão mundial em 2010 e dono de um dos legados mais pesados da posição na história da seleção. A marca anterior foi de 476 minutos sem sofrer gols em Copas, construída entre o título de 2010, na África do Sul, e a estreia espanhola em 2014, no Brasil.

SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin

Agora, a Copa da Espanha muda de prateleira. A Áustria foi um obstáculo leve demais para medir até onde esse time pode ir. Nas oitavas, virá outro europeu — Portugal ou Croácia. E aí a conversa muda. Portugal tem talento, peso histórico e jogadores capazes de decidir em um lance. A Croácia, mesmo envelhecida, carrega a experiência de quem se acostumou a sobreviver em mata-matas. Qualquer uma das duas será mais perigosa, mais cascuda e mais desconfortável.

Mas a Espanha sai deste 3 a 0 maior do que entrou. Não apenas classificada. Convincente. Sem sustos. Sem sofrer gols. Com Yamal desequilibrando, Oyarzabal decidindo, Porro aparecendo, De la Fuente empilhando invencibilidade e Unai Simón escrevendo seu nome na história. A Copa, para La Roja, acaba de ficar séria. Para seus adversários, também.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui