O técnico Carlo Ancelotti não precisou esperar a primeira convocação depois da Copa do Mundo deste ano para estabelecer qual será uma das principais missões da seleção brasileira no caminho até 2030. Enquanto a renovação de nomes será consequência natural de um ciclo que começa, o treinador italiano apontou uma carência específica depois da eliminação diante da Noruega: o Brasil precisa encontrar meio-campistas.

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A lista de 26 jogadores que será anunciada nesta quarta-feira, às 15h, na sede da CBF, no Rio de Janeiro, será a primeira oportunidade de transformar o diagnóstico em ação. Mais importante do que descobrir quantas novidades aparecerão, portanto, será entender quais características Ancelotti começa a procurar. Os primeiros testes serão contra a Austrália, nos dias 25 e 29 de setembro, e diante da Índia, em 3 de outubro.

Carlo Ancelotti, técnico do Brasil, começa o ciclo rumo à Copa do Mundo de 2030 em busca de jogadores criativos / CBF

Fala, professor !

“Temos de encontrar meio-campistas de nível”, afirmou o treinador depois do Mundial. A frase não surgiu de uma avaliação genérica sobre renovação. Veio acompanhada de uma explicação sobre a própria maneira como o Brasil jogou a Copa do Mundo e sobre as limitações que condicionaram suas escolhas. Na visão de Ancelotti, o Brasil estava bem servido de jogadores capazes de decidir nas duas extremidades do campo, mas tinha menos alternativas no setor responsável por conectar uma coisa à outra. E isso ajuda a explicar por que ele apostou tantas vezes em verticalidade, velocidade e transições.

O exemplo mais doloroso aconteceu na despedida do Mundial. Na derrota por 2 a 1 para a Noruega, nas oitavas de final, o Brasil terminou o jogo com 35% de posse de bola. O plano era entregar terreno ao adversário e explorar a velocidade no ataque. Funcionou em alguns momentos, mas não o suficiente para evitar a eliminação. Isso não significa que Ancelotti tenha passado a defender um Brasil de posse prolongada. O italiano sempre deixou claro que pretende montar a equipe a partir das características disponíveis. Com atacantes como Vini Jr, Endrick, Estêvão e Rayan, entende ser natural explorar profundidade e aceleração.

Mas admitiu que o aparecimento de jogadores de maior capacidade para criar jogadas no meio-campo permite acrescentar outro repertório ao time. Em outras palavras: Ancelotti não está procurando substitutos mais jovens para os veteranos. Está atrás de jogadores que aumentem as possibilidades da seleção.

A primeira pista está na pré-lista

Os nomes já conhecidos da lista larga preparada para os amistosos contra Austrália e Índia dão sinais de que a busca começou. Entre eles estão Zé Lucas e Matheus Pereira, do Cruzeiro; André e Breno Bidon, do Corinthians; e Gabriel Bontempo, do Santos. Não significa que todos estarão entre os 26 convocados, mas a presença deles no radar mostra a amplitude da observação feita pela comissão técnica. Zé Lucas tem 18 anos e uma formação mais ligada à função de volante. Bontempo, aos 21, oferece versatilidade para atuar em diferentes posições do setor. Breno Bidon, também de 21 anos, destaca-se pela qualidade de passe e leitura do jogo. Matheus Pereira representa um jogador já mais pronto, capaz de exercer funções de organização e criação. Essa diversidade talvez seja mais importante do que a simples idade dos candidatos.

Na Copa de 2026, Ancelotti convocou cinco meio-campistas: Bruno Guimarães, Casemiro, Danilo Santos, Fabinho e Lucas Paquetá. Éderson entrou após o corte do lateral Wesley. Casemiro, um dos símbolos da geração que terminou o Mundial, já teve seu ciclo encerrado pelo próprio treinador. Fabinho chegou à Copa como uma opção experiente. A reconstrução, portanto, não exige apenas reposição numérica. Exige descobrir quem será capaz de dividir responsabilidades com Bruno Guimarães e oferecer ao Brasil características que faltaram em 2026. É uma busca por novos atletas, mas também por identidade.

Quatro anos para mudar o repertório

Há uma diferença entre o Ancelotti que chegou à seleção em maio de 2025 e aquele que começa agora o trabalho para 2030. Antes, havia pouco tempo. Agora, há um ciclo completo. A CBF renovou o contrato do treinador até o próximo Mundial, e as primeiras partidas oficiais das Eliminatórias Sul-Americanas estão previstas apenas para o segundo semestre de 2027. Antes disso, o calendário oferece espaço considerável para observação.

Ancelotti Matheus Pereira, cruzeiro
Cruzeirense Matheus Pereira está na pré-lista; jogador possui as características para mudar o meio-campo / Cruzeiro

Resultados importam para qualquer seleção, mas esses três amistosos terão menos valor pelo placar do que pelas respostas que poderão produzir. O trabalho já ultrapassou a equipe principal. Ancelotti se reuniu com os treinadores das seleções sub-15, sub-17 e sub-20 e quer aproximar as categorias porque entende que vários jogadores do próximo ciclo olímpico poderão chegar à Copa de 2030.

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É nesse horizonte que a convocação desta quarta-feira precisa ser observada. Depois da Copa, seria fácil resumir a reconstrução a uma troca de gerações. Saem Neymar, Casemiro e outros veteranos; entram garotos. Ancelotti, porém, colocou uma discussão mais profunda sobre a mesa. O Brasil precisa descobrir não apenas quem jogará em 2030, mas como pretende jogar até lá. E a primeira resposta pode começar no setor que o treinador identificou como a maior lacuna de sua seleção. A caminhada para 2030 começa pelo meio.

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