O Brasil está de volta à Copa do Mundo. Mas, mais importante do que isso, talvez esteja de volta a si mesmo. Nas mãos de Carlo Ancelotti, a seleção reencontra não apenas a vaga que lhe é habitual, mas sinais de identidade, direção e serenidade — virtudes que há tempos pareciam extraviadas no caminho. É bom que se diga: o Brasil fez a sua obrigação. Garantir presença na Copa de 2026 era o mínimo. Mas o modo como a equipe tratou essa missão na noite desta terça-feira foi o verdadeiro diferencial.
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Diante do Paraguai, na Neo Química Arena, o time teve uma atitude positiva, com postura de quem sabia o que precisava fazer — e com autoridade de quem sabia como. Foi uma atuação de imposição, dentro de casa, diante de uma torcida que esperava mais do que uma vitória: queria ver sinais de renascimento. O Brasil mostrou organização, aplicação e foco constante na busca pelo gol, que só veio aos 43 minutos do primeiro tempo. Mas veio na hora certa, no momento em que a pressão poderia virar impaciência. E veio com a marca do talento.

A jogada começou pela direita, em boa movimentação entre Raphinha e Matheus Cunha. A bola cruzou a área e encontrou Vinícius Júnior lno meio dos zagueiros, mas em condições de tocar de primeira e abrir o placar. Um gol com DNA ofensivo, coletivo, e que premiou uma atuação madura de uma seleção que já começa a assumir a cara do seu novo comandante.
Noite de Carlo Ancelotti
Foi uma noite de presentes. Para Ancelotti, que celebrava 66 anos em sua estreia no comando da seleção em território nacional. Para os torcedores, que lotaram Itaquera com fé e mosaicos, como se soubessem que algo diferente começava ali. E para a própria seleção, que agora pode respirar com alívio, livre da pressão de uma eventual tragédia —, a de ver o Brasil fora de um Mundial pela primeira vez na história.

É verdade que a missão não era das mais espinhosas. O Brasil não precisava de um milagre, apenas de organização e foco. Mas foi justamente aí que Ancelotti começou a mostrar seu valor. Em menos de duas semanas de trabalho, com apenas dois jogos sob seu comando, o técnico italiano conquistou quatro pontos e espantou o medo que rondava a torcida. Mais do que o resultado em si, foi o modo como o time respondeu que chamou atenção.
Brasil, enfim, no seu ritmo
Se em Guayaquil, no empate sem gols contra o Equador, a seleção parecia travada, sem fluidez ou agressividade, o que se viu em Itaquera foi uma equipe mais solta, mais vertical e, sobretudo, mais parecida com aquilo que historicamente entendemos como futebol brasileiro. Houve velocidade, movimentação e ousadia — ainda que controlada, como manda o manual de um técnico que prefere dominar o jogo com a cabeça no lugar e os pés no chão. A seleção começou, enfim, a respirar com seu próprio ritmo.
A sensação é de que, depois de tantos anos tentando se reencontrar, o Brasil talvez tenha descoberto que o que faltava era justamente alguém de fora. Alguém que olhasse para a camisa amarela com respeito, mas também com frieza. Que entendesse a importância da história, mas sem se deixar engolir por ela. Ancelotti não veio para ensinar o Brasil a jogar futebol. Veio para organizar o que se perdeu. E, pelo menos por uma noite, deu sinais claros de que está no caminho certo.





