Quem frequenta as alamedas do Parque São Jorge garante que está cada vez mais forte o cheiro de fritura do técnico Dorival Júnior. O fogo ainda é baixo, o processo é lento, mas os sinais de desgaste na relação entre o treinador e o ambiente do Corinthians já estão no ar há algumas semanas e ganham corpo à medida que os jogos passam e o time derrapa em campo.

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Mas como assim? Não faz três meses que Dorival conduziu o Corinthians aos títulos da Copa do Brasil e da Supercopa, diante de adversários poderosos? A pergunta parece lógica, mas talvez o paradoxo esteja justamente aí. Para muitos críticos do momento, as conquistas acabaram maquiando problemas estruturais da equipe que já deveriam ter sido enfrentados pela comissão técnica.

Dorival começa a ser questionado dentro do Corinthians de novo: time não melhora e astros pararam de jogar / Corinthians

É como se as taças tivessem funcionado como uma cortina de fumaça para questões táticas e técnicas que impedem o time corintiano de manter regularidade. A falta de um padrão de jogo incomoda. A repetição de erros primários na saída de bola — problema que, para muitos observadores, já atravessa mais de três temporadas — esgotou a paciência daqueles que imaginavam ver um Corinthians mais linear em campo sob o comando de Dorival.

Desculpas não colam mais

As desculpas recorrentes de calendário apertado, elenco curto ou falta de tempo para treinar também já não encontram grande aderência no discurso público. A gota d’água, para boa parte da torcida, foi a péssima exibição coletiva na derrota para o Coritiba, em plena Neo Química Arena, logo depois de um período de doze dias dedicados exclusivamente a treinamentos e recuperação física de jogadores desgastados pelo início precoce da temporada.

Para quem assistiu à partida ficou evidente a ausência de progressos táticos e saltou aos olhos o baixíssimo rendimento técnico individual de alguns dos principais nomes do elenco. Jogadores como Rodrigo Garro, Memphis Depay e Breno Bidon caminharam em campo em diversos momentos, o que inflamou a torcida. Revoltados, torcedores foram nesta semana ao centro de treinamento cobrar mais empenho, mais garra e mais amor à camisa.

Memphis Depay, principal jogador do Corinthians, vive sua pior fase desde que chegou ao Brasil / Corinthians

Não foi a primeira vez que a torcida decidiu agir dessa forma. Em outras ocasiões, a pressão até produziu algum efeito imediato. Mas não há time no mundo capaz de sobreviver por muito tempo a esse método condenável de “ou joga por amor ou por terror”. A torcida, na verdade, nem deveria ter permissão para ir ao local de trabalho dos atletas a fim de pressioná-los dessa maneira — ainda que o Corinthians seja, historicamente, um clube em que a torcida se vê proprietária simbólica do time.

Torcida cobra treinador e elenco

A bem da verdade, os problemas apontados por torcedores e críticos deveriam ser resolvidos internamente pelo trabalho da comissão técnica. Cabe a ela estabelecer um plano de jogo consistente, oferecer variações táticas para diferentes adversários e distintos cenários de partida, encontrar as melhores opções de escalação e mexer com precisão durante os jogos. Exigir entrega, nesse contexto, deveria ser até dispensável — afinal, trata-se de um ambiente profissional em que correr e suar a camisa é obrigação básica de quem recebe altos salários para isso.

É nesse cenário que o clássico com o Santos, neste domingo, na Vila Belmiro, ganha contornos de teste de fogo. Para o elenco, é uma prova de caráter. Para Dorival é uma prova de sobrevivência e pode significar mais um capítulo decisivo nesse processo de fritura em fogo baixo. Ainda que o executivo de futebol Marcelo Paz garanta que a continuidade do trabalho não está em discussão dentro da diretoria neste momento, é inegável que uma derrota em Santos pode aumentar a temperatura do óleo que já começa a borbulhar sob a panela do treinador.

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Se o Corinthians sair da Vila com uma vitória convincente e der mais uma demonstração clara de superação coletiva, voltará à tona a pergunta que muitos já fazem ao analisar este time de Dorival: o Corinthians escolhe jogos para jogar mais? Seja como for, o botão de alerta está ligado no Parque São Jorge — e ignorá-lo talvez seja o maior risco de todos.

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