“O tempo é relativo e não pode ser medido exatamente do mesmo modo e por toda a parte”. A frase, frequentemente atribuída a Albert Einstein, sintetiza a essência da Teoria da Relatividade e explica que o tempo não é absoluto, passando em ritmos diferentes conforme o observador. Se fosse possível levar essa discussão para o recorte de Remo x Palmeiras – ou para esse texto –, o conceito tem lá suas comprovações.
A começar pelo horário do jogo, agendado para as 16h, mas que teve início uma hora e meia depois por causa da situação impraticável do gramado do Mangueirão, alagado pelas chuvas em Belém. O tempo, referente à condição climática, não parecia muito favorável ao apito inicial da partida da 15ª rodada. O tempo cronológico avançou – com percepção bem inquietante para quem aguardava pelo jogo – e, enfim, a bola rolou. É sabido por todos que o calendário brasileiro não tem brechas para partidas não jogadas.

Foram os tradicionais 90 minutos mais os acréscimos. Os recortes da partida, no entanto, tinham personalidade própria. E divisões de pressa, relógio contra e a favor, necessidade de acelerar ou forçar os ponteiros a andar mais rápido. O placar terminou mostrando 1 a 1, em um empate que, na prática, foi ruim para os dois times. Pela maneira com que a história se desenhou, ficou pior para um do que para o outro. Tudo tem a ver com o ponto de vista, com o ritmo do observador. Como dizia lá em outros tempos um pedacinho da teoria mais famosa de Einstein.
Remo ‘ignora’ o tempo
Nem seria preciso fazer grandes cálculos para entender como a dinâmica do jogo se desenharia. Nem deu muito tempo de um time estudar o outro na verdade. Foi com poucos segundos passados de um minuto que a torcida do Remo já fazia a festa, quando Alef Manga vencia a defesa palmeirense em velocidade antes de chutar rasteiro, cruzado, a bola que venceu Carlos Miguel.
Vencer o camisa 1 do Palmeiras, mostram os números e os lances, não tem sido uma equação simples de resolver. Alef Manga conseguiu no início do jogo. Depois disso, poucos jogadores do time paraense fizeram parecido no 1º tempo. Isso porque, atrás no placar, o Palmeiras, comandado por João Martins – Abel Ferreira cumpriu seu último jogo de suspensão –, tratou de não perder tempo. Nem deu espaço ao adversário. Correu rápido atrás do marcador.
Palmeiras iguala a contagem
A pressão aumentou e as oportunidades apareciam, ainda que o Alviverde vivia uma jornada com muitos erros individuais especialmente na construção das jogadas. Há uma hipótese de que o gramado molhado e pesado poderia atrapalhar. Que pode até funcionar para preparar novas missões, mas não para mudar o resultado já estabelecido.
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Ramón Sosa também teve seus momentos de erro e deu um “show” de impedimentos na partida. Não que estivesse mal, como no contexto geral o Palmeiras também não estava. Mas, aos 23 minutos, o paraguaio colocou as expectativas nos eixos – pelo menos da perspectiva do líder. Patrick deu a bola de graça para Allan, que acionou Sosa em velocidade. O camisa 19 pegou mascado, mas a bola bateu na marcação e matou Marcelo Rangel: 1 a 1.
Problemas na linha do tempo
No 2º tempo, o tempo correu diferente. Apesar do empate ruim diante da sua torcida, o Remo se posicionou atrás da linha da bola para buscar espaços nas costas palmeirenses. Havia uma certeza ali de que não seria uma boa se lançar contra um rival que ocupa a ponta da tabela, principalmente quando você precisa fugir das últimas posições. A bola aérea, no entanto, quase faz todo mundo rasgar as prospecções como já havia acontecido na etapa inicial. Marcelinho subiu mais alto do que todo mundo e mandou uma testada firme no travessão. Carlos Miguel só pôde olhar e esperar que as coisas dessem certo.
O tempo passou e o Palmeiras, mais uma vez, foi se encontrando ao passo que os ponteiros avançavam. A imposição física falava mais alto do que a técnica. Há uma outra tese que diz que, quando o gramado está ruim – a chuva havia feito esse trabalho –, a diferença técnica entre as equipes acaba sendo diminuída. Só que houve ali uma ruptura.
Um a mais e o resultado não muda
Aos 23 minutos, Zé Ricardo deu entrada violenta em Andreas Pereira, com uma joelhada nas costas e um empurrão no ombro. O camisa 8 palmeirense, em ato contínuo, até deixou o campo de jogo. Rafael Rodrigo Klein fez sua primeira visita memorável ao VAR e voltou com o cartão vermelho na mão. Dali em diante, o tempo passou a correr para o Palmeiras e a se arrastar para o Remo. Os paraenses definiram que o empate era um bom resultado diante das circunstâncias. Os paulistas, que já não estavam felizes antes, diante das condições, entenderam que os três pontos eram obrigatórios. Mas, como chegar ao segundo gol definitivamente virou o xis da questão.
Desafio às probabilidades e o déjà vu
Parte da torcida tem criticado a falta de inspiração para conseguir passar por defesas postadas e, mais uma vez, o time palmeirense reforçou a tese. Com aparente pouca organização e a escalada em progressão geométrica de jogadores no ataque, o que se via com frequência era o bom e velho chuveirinho na área. E, como acontece na maioria dos casos, pouca coisa acontece.

Mas as probabilidades também estão aí para serem desafiadas. Nos acréscimos, uma bola jogada na área sobrou para Bruno Fuchs depois de um bate e rebate. Com firmeza, ele mandou para o fundo das redes o que seria uma virada e tanto. Teve comemoração e alívio. Só que o observador do VAR tinha outros planos. Na revisão do lance, foi possível ver que a bola bateu no braço do argentino Flaco López antes de o zagueiro concluir. A anulação foi extremamente questionada pela diretoria palmeirense. E aí, tal qual uma viagem no tempo de baixo orçamento, todo mundo teve de congelar a emoção de antes do gol.
Se essa máquina do tempo tivesse mais fichas, seria possível dizer que houve o exata igual sentimento do último jogo do Brasileirão, no ainda Allianz Parque, quando o Palmeiras achou a virada nos acréscimos diante do Santos e, também, teve o gol anulado por uma bola que resvalou na mão de Arias. Quem observa de perto esse tropeço palmeirense são os outros postulantes à liderança. Mas o Brasileirão termina a rodada nas mãos do Alviverde independentemente da combinação de resultados. Mas que Abel e seus comandados saibam que o tempo de voltar a somar três pontos urge. Para que, inclusive, não seja tarde demais.





