Para surpresa de zero pessoas, a arbitragem voltou a ser protagonista no fim de semana do Brasileirão. De novo, decisões capitais mudaram o rumo de jogos, a classificação na tabela e o humor de torcedores e dirigentes. De novo, o VAR — essa sigla que deveria significar Video Assistant Referee — serviu mais para confundir do que para corrigir. E, de novo, a CBF reagiu com o mesmo receituário inócuo de sempre: suspender um árbitro aqui, outro acolá, e seguir adiante como se o problema fosse episódico, e não estrutural.

Siga The Football

Chega de passar vergonha. A CBF precisa de um choque de realidade na arbitragem. Mas já não há espaço para paliativos. Erros como o do árbitro Ramon Abatti Abel no clássico São Paulo 2 x 3 Palmeiras, que determinaram o resultado com uma atuação desastrosa, não são exceções. São sintomas. E sintomas pedem diagnóstico, não remendo. A arbitragem brasileira está doente — e a CBF insiste em tratar febre com compressa fria.

Rodada com erros cruciais levaram a CBF a afastar árbitros do Choque-Rei e do jogo entre Grêmio e Bragantino / SPFC

O que a entidade está precisando, antes de qualquer outro gesto, é indignar-se com o quadro atual. E dar ouvidos a quem critica o sistema com propriedade, como, por exemplo, o desabafo corajoso do zagueiro Marlon, capitão do Grêmio, depois da derrota para o Bragantino, definida por um pênalti marcado nos acréscimos — um lance que beira o absurdo e que escancara o colapso de critérios da arbitragem nacional.

O Grêmio Futebol Porto-Alegrense está sendo categoricamente roubado desde que começou o campeonato. A gente vive numa liga onde você quer melhorar o calendário, mas a gente não tem nem profissionalização dos árbitros. Eles não têm suporte. E eles são, sim, influenciáveis. Esse pênalti que foi marcado aqui foi uma baixaria sem tamanho, porque não tem critério.
Marlon

Portanto, Marlon não falou só por si nem apenas pelo Grêmio. Ele deu voz a um sentimento coletivo. Um cansaço generalizado com a incompetência, a falta de critério e a opacidade que tomaram conta da arbitragem brasileira. E é esse o ponto: não se trata mais de favorecimento ou complô, mas de despreparo e desorganização. Todos os clubes, em algum momento, são prejudicados ou beneficiados — e isso é o retrato de um sistema sem padrão, sem rumo e sem credibilidade.

Padronização do VAR

A CBF está precisando ir além das punições pontuais e encarar o problema de frente. A raiz da crise está na estrutura. É preciso profissionalizar os árbitros, dar-lhes suporte, formação contínua, avaliações transparentes e dedicação exclusiva. Não há mais sentido em manter juízes de fim de semana num futebol que movimenta bilhões.

SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
Threads
Tik Tok

Assim sendo, outro passo indispensável é padronizar e tornar públicos os protocolos do VAR. O torcedor — e o próprio jogador — precisa saber o que é interpretado como mão, o que define amplitude de espaço, o que configura impedimento, o que é falta para vermelho… Hoje, o VAR no Brasil é um labirinto interpretativo. Uma ferramenta que, em vez de pacificar o jogo, o contamina com incerteza. Como disse o diretor do São Paulo, Carlos Belmonte, “o VAR no Brasil é uma vergonha”. E é mesmo. Conseguimos estragar uma tecnologia que funciona em todos os lugares do mundo.

Para o diretor de futebol do São Paulo, Carlos Belmonte, o “VAR no Brasil é uma vergonha” / CBF

Além disso, a CBF precisa abrir a caixa-preta. Tornar públicos os áudios do VAR, os relatórios de avaliação e os critérios de escala e rebaixamento de árbitros. O erro, quando ocorre, precisa ser exposto, debatido e corrigido. Não punido com silêncio. Porque, do jeito que está, o futebol brasileiro segue refém de uma arbitragem que não é profissional, não é transparente e, pior, não é confiável.

Chega. Já deu

A CBF não pode continuar enxugando gelo enquanto a credibilidade do campeonato derrete. Se não houver tratamento de choque, se não houver mudança real de estrutura, o Brasileirão seguirá manchado por um tipo de erro que não é humano, mas institucional. Que a CBF escute o apelo de Marlon — e de tantos outros que se calam por medo de represália — enquanto ainda há tempo de salvar o que resta da lisura do futebol brasileiro.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui