O Corinthians não tem um dia de paz. Quando parece que o clube finalmente encontrou uma trégua para respirar, alguma coisa acontece e devolve o Parque São Jorge ao olho do furacão. Foi assim depois da classificação épica diante do Rosario Central, na quinta-feira. A festa pela passagem às quartas de final da Libertadores mal havia terminado quando, menos de 24 horas depois, Memphis Depay tratou de jogar mais lenha na fogueira. E, neste sábado, enquanto o clube tentava apagar o incêndio provocado pelo craque holandês, a torcida voltava às ruas para cobrar a intervenção na gestão.

Mais sobre o Corinthians

É o Corinthians em chamas. Literalmente, pelo menos na imagem escolhida por Memphis para encerrar o videoclipe de sua nova música, “Don’t Panic”. O Parque São Jorge aparece tomado pelo fogo enquanto o jogador observa a cena de dentro de um carro. A letra também traz referências evidentes à turbulenta relação que ele manteve com dirigentes durante a negociação pela renovação do contrato, inclusive uma menção a um vice-presidente que teria se transformado em seu inimigo.

Corinthians em chamas Reprodução da imagem de cena do clipe de Memphis Depay
No clipe de ‘Don’t Panic’, Depay observa o Parque São Jorge em chamas; diretoria reage multar o jogador / Reprodução

Ambiente turbulento

Pode ser arte. Pode ser coincidência. Pode até ser uma produção feita meses atrás, como Memphis explicou depois da repercussão negativa. Mas, no Corinthians de hoje, até coincidência vira combustível para crises. O problema não é Memphis ter uma carreira paralela como artista. Nem o direito de expressar, por meio da música, aquilo que pensa. O problema é o contexto. O vídeo foi publicado justamente na semana em que o jogador finalmente colocou um ponto final na novela da renovação de seu contrato, depois de uma negociação que expôs as feridas internas do clube e deixou marcas dos dois lados.

A diretoria do Corinthians reagiu e procurou Memphis para pedir explicações. Depois da conversa, informou que adotaria as medidas contratuais e legais cabíveis. O jogador lamentou a coincidência temporal, afirmou que o material havia sido gravado anteriormente e disse compreender os argumentos do clube. Ainda assim, a direção decidiu multá-lo. É aí que começa uma discussão mais importante do que a própria polêmica do videoclipe: o chamado custo Memphis. O camisa 10 ganhou uma dimensão especial dentro do Corinthians, não apenas porque é o principal jogador do elenco, mas porque construiu uma relação muito forte com a torcida.

Na recente novela pela renovação, saiu ainda mais fortalecido. O torcedor comprou sua briga, pressionou a diretoria e ajudou a criar o ambiente que levou à permanência do holandês. Só que existe uma diferença entre ter representatividade e ter poder. Memphis não é maior do que o Corinthians. E talvez seja justamente esse o limite que precisa ser estabelecido agora, antes que uma relação que acabou de ser renovada por mais dois anos comece contaminada por uma sucessão de novos conflitos.

Relação em conflito

O Corinthians precisa de Memphis. Memphis também precisa do Corinthians. Essa é uma relação de interesse mútuo. O craque tem o talento, o carisma e a capacidade de decidir jogos que fizeram dele uma espécie de personagem acima da média no elenco. A torcida o abraçou. A diretoria aceitou fazer concessões para mantê-lo. Mas o contrato não transforma o jogador em dono da instituição, assim como a força de sua popularidade não lhe concede licença para atropelar os limites que qualquer profissional deveria respeitar.

O risco está justamente aí. O Corinthians não pode permitir que a força de Memphis se transforme em um poder paralelo dentro do clube. E Memphis precisa compreender que, por maior que seja sua identificação com a torcida, existe uma instituição que está acima de todos os seus personagens. O episódio do videoclipe talvez seja apenas um tropeço. Talvez seja o primeiro capítulo de uma nova sequência de atritos. A diretoria fez um movimento ao reagir e aplicar a punição prevista no contrato. Memphis, por sua vez, tentou colocar panos quentes ao explicar que a produção não tinha relação com os acontecimentos recentes e que sua intenção era artística.

Torcedores do Corinthians protestam em frente ao Parque São Jorge e pedem intervenção na gestão do clube.
Torcedores do Corinthians protestam em frente ao Parque São Jorge e pedem intervenção na gestão do clube / Reprodução

SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin

Mas a fumaça já tomou conta do ambiente. E não é apenas por causa de Memphis. Enquanto o jogador tentava explicar a imagem do Parque São Jorge em chamas, centenas de torcedores se reuniam justamente diante da sede social do Corinthians para protestar contra a situação política e administrativa do clube. Foi a terceira mobilização em apenas quatro dias. As manifestações pediram intervenção judicial, “limpeza” no clube e a saída de dirigentes identificados pelos torcedores como responsáveis pela crise — a quem eles chamam de “ratos”. É difícil imaginar uma fotografia mais simbólica do momento corintiano.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui