“Adeus, Tite! Adeus, Tite!”. A reação da torcida do Cruzeiro ao final do jogo — um misto de impaciência e decepção com a performance do time sob o comando do ex-técnico da seleção brasileira — dá a exata dimensão do tamanho do resultado conquistado pelo Corinthians na noite desta quarta-feira no Mineirão. O empate em 1 a 1, se não justifica a revolta dos cruzeirenses, explica por que esse Corinthians de Dorival Júnior voltou a ser uma equipe respeitada.
Historicamente, o time sempre jogou com essa aura de nunca desistir do resultado, de jamais se entregar em campo, essa coisa meio mística de que tem de ser sempre sofrido — simbologia que marca as mais improváveis conquistas alvinegras. Agora, no entanto, sob o comando de Dorival, essa resiliência, esse saber sofrer, se dá de uma forma que faz o torcedor acreditar que é possível sonhar com novos horizontes depois de anos conturbados nos bastidores e sofríveis dentro de campo. O ponto conquistado em Minas diz muito sobre isso.

O Corinthians encarou o jogo como se ele fosse um segundo plano no planejamento da semana. Preocupado em não desgastar seus principais jogadores para o duelo decisivo de sábado à noite com o Novorizontino, pelas semifinais do Campeonato Paulista, o time foi a campo totalmente desfigurado, com apenas três titulares: Hugo, Raniele e Breno Bidon. Pelo plano de jogo, a ideia parecia clara: segurar o ímpeto do adversário e, se possível, achar um gol em cruzamento de bola aérea para Pedro Raul. Dorival mudou peças e até o esquema tático, alinhando um 4-1-4-1 eminentemente defensivo.
Primeiro tempo foi do Cruzeiro
Isso permitiu que o Cruzeiro tomasse conta do jogo no primeiro tempo. Muitas vezes parecia daqueles treinos coletivos em que o time titular, de colete azul, treina as jogadas de ataque e o time reserva, de colete branco, faz apenas o papel de sparring na defesa, sem nenhuma intenção de incomodar.
Assim, desse modo, o time mineiro fez 1 a 0 logo aos oito minutos, com Matheus Pereira aproveitando os espaços entre as duas linhas de quatro para receber a bola na entrada da área, olhar com calma, escolher o canto e bater para o gol. Com ampla superioridade nas ações, o time de Tite poderia ter matado o jogo ainda na etapa inicial, mas vacilou. E ninguém vacila impunemente diante desse Corinthians que está construindo musculatura de um time sólido.
Mudança de postura
Na segunda etapa, mesmo perdendo, Dorival reforçou sua ideia de relegar o duelo a segundo plano e voltou com duas alterações, sacando Raniele e Bidon, os dois únicos titulares de linha que também seriam poupados para o jogo em Novo Horizonte. Mas, de repente, o treinador percebeu que o Cruzeiro baixou a intensidade — talvez satisfeito com o 1 a 0 — e viu que dava para reverter a derrota. Já com Garro, Allan e Memphis em campo, e Carrillo fazendo o papel que não fez na etapa inicial de iniciar a articulação das jogadas no meio de campo, o Corinthians cresceu e passou a enxergar a possibilidade de buscar um resultado melhor.

Pelas circunstâncias, um resultado para lá de festejado. Aos 38 minutos, numa jogada de bola aérea que parecia desenhada para Pedro Raul, o time chegou ao empate com uma cena perfeita para João Pedro Tchoca: cobrança precisa de escanteio de Garro, cabeçada firme e sem chance de defesa para o goleiro Cássio. Pronto, o Timão reverteu uma derrota que parecia inevitável em um empate que garante um ponto importante fora de casa e confirma a ideia de que, enfim, encontrou um caminho.
Redenção no Mineirão
Para compor mais uma noite especial, o enredo ainda abriu espaço para a redenção de João Pedro Tchoca, cria do terrão, que havia passado recentemente pela humilhação de ter sido negociado com o Torino, mas devolvido ao clube por um misterioso problema clínico apontado nos exames médicos. Momento perfeito para o menino dar a volta por cima e desabafar. “Esta é uma noite para lavar a alma. Quero agradecer a Deus e a todo o grupo por ter me abraçado quando voltei depois de ter sido dispensado pelo Torino. Não esperava ser reprovado lá. Acho que o problema é deles, não meu”.
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Mais um sintoma de que o Corinthians aprende a sofrer a cada adversidade. E assim vai, ganhando casca, somando pontos importantes e reconstruindo, jogo a jogo, a convicção de que ainda pode chegar longe. Tudo isso sob o olhar cândido de Carlo Ancelotti, que estava no Mineirão para observar alguns jogadores.





