Em condições normais, empatar com o Flamengo nunca poderia ser tratado como um mau resultado. Mesmo em casa. A qualidade do elenco rubro-negro, recheado de estrelas e soluções, costuma impor respeito a qualquer adversário. Mas o 1 a 1 da noite deste domingo, na Neo Química Arena, em Itaquera, teve gosto amargo para a torcida do Corinthians. Não apenas pelo contexto do jogo, mas pelo momento que o time atravessa na temporada.
A igualdade no placar amplia uma sequência que já se tornou incômoda: são agora sete partidas sem vitória. Um jejum que empaca o Corinthians na tabela do Campeonato Brasileiro e acende o sinal de alerta. Com 10 pontos em oito jogos, o time já vê o líder, o Palmeiras, abrir uma vantagem considerável — praticamente o dobro da pontuação. Pior: a distância para a zona de rebaixamento encolhe rodada a rodada e já é perigosamente curta, hoje de apenas quatro pontos. Nessa hora é que se percebe o impacto das derrotas para Bahia e Coritiba e o empate contra a Chapecoense.

E isso torna o empate ainda mais frustrante porque, dentro das circunstâncias da partida, havia uma oportunidade clara de vitória. Especialmente depois dos 12 minutos do segundo tempo, quando o Flamengo ficou com um jogador a menos após a expulsão de Ewertton Araújo. Era o cenário ideal para transformar um resultado aceitável em um triunfo necessário. Mas, mais uma vez, o Corinthians esbarrou em suas próprias limitações.
Hugo vai do inferno ao céu
Até ali, o jogo tinha sido bom — muito bom, aliás. Um primeiro tempo intenso, técnico, com dois belos gols e momentos de alto nível. Uma partida que honrava o peso de um duelo entre os dois clubes mais populares do país, que recentemente decidiram a Supercopa do Brasil.
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A noite também teve seus personagens. Hugo Souza viveu uma montanha-russa particular às vésperas de se apresentar à seleção brasileira. Logo aos 2 minutos, errou na saída de bola e praticamente entregou o gol para o Flamengo, marcado por Lucas Paquetá. O erro abalou o goleiro, visivelmente tenso dali em diante. Mas ele encontrou redenção ainda no primeiro tempo, com uma defesa espetacular em um voleio de Arrascaeta que tinha a rede como destino certo, não fosse a mão salvadora de Hugo.
Lesão de Memphis Depay
Do outro lado, Memphis Depay apareceu em versão decisiva. Foi dele o passe magistral de três dedos que iniciou a jogada do gol de empate, concluída por Yuri Alberto após cruzamento de Bidu. Um lance de alta qualidade técnica. Mas a participação do holandês durou pouco: logo após o gol, caiu no gramado com a mão na coxa direita, sinalizando uma lesão muscular que o tirou do jogo.
Na etapa final, porém, o enredo mudou — e não para melhor. A partida perdeu ritmo e acabou contaminada pela confusa arbitragem de Rodrigo José Pereira de Lima. A expulsão de Ewertton Araújo, cercada de dúvidas, expôs a falta de convicção do árbitro, que precisou recorrer ao VAR antes de sustentar sua decisão. A partir dali, perdeu o controle emocional do jogo e passou a ser pressionado por ambos os lados, encerrando a noite com a sensação de desagradar a todos. O Corinthians reclama de um pênalti não marcado de Ayrton Lucas em André, por exemplo.

Ainda assim, nada disso serve como justificativa suficiente para o Corinthians. Com um jogador a mais por boa parte do segundo tempo, o Timão poderia ter feito mais. Faltou, mais uma vez, saber o que fazer com isso. A circulação de bola foi estéril, previsível, incapaz de desorganizar um Flamengo naturalmente retraído. Muito toque lateral, pouca profundidade, quase nenhuma agressividade.
A melhor chance só apareceu já nos acréscimos, quando Yuri Alberto finalizou de virada e obrigou Agustín Rossi a fazer uma defesa milagrosa — tão decisiva quanto a de Hugo Souza no primeiro tempo. Um empate técnico também nesse duelo particular de goleiros. No fim, o placar refletiu o equilíbrio do jogo, mas não apaga a sensação de oportunidade desperdiçada. Para quem briga lá em cima, empatar com o Flamengo pode ser aceitável. Para quem não vence há sete jogos e vê a zona de perigo se aproximar, é mais uma decepção difícil de engolir.





