O Canadá precisava de um herói que carregasse no corpo a cara desse time: um pé fincado no país, outro no mundo. Encontrou em Stephen Eustáquio. Aos 47 minutos do segundo tempo, quando a partida contra a África do Sul já parecia condenada à prorrogação, a bola sobrou na entrada da área. Ele matou no peito, deixou quicar e acertou o chute que muda a história de uma seleção. Canadá 1 a 0. Fim de jogo. Fim da tensão. Começo das oitavas de final.

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Foi a primeira vitória canadense em um mata-mata de Copa do Mundo. E veio justamente pelos pés de um jogador que, de certa forma, simboliza a construção recente do futebol do país. Eustáquio nasceu em Leamington, em Ontário, em 21 de dezembro de 1996, filho de portugueses, cresceu também em Leamington e se mudou ainda criança para Nazaré, em Portugal, terra da família. Segundo a Canada Soccer, ele tinha 11 anos quando a família voltou para o país europeu: hoje, soma 60 jogos, 55 como titular, cinco gols e quatro assistências pela seleção principal canadense.

Eustáquio celebra o seu gol
Eustáquio finaliza com precisão de fora da área e arranca para a celebração do seu gol na classificação do Canadá / Fifa

Eustáquio, cidadão do mundo

A carreira de Eustáquio nunca foi uma linha reta. Antes de virar peça central do Canadá, ele passou por clubes portugueses como Torreense, Leixões, Chaves e Paços de Ferreira, teve ainda uma passagem breve pelo Cruz Azul, do México, e se consolidou no Porto. No clube português, disputou mais de 150 partidas, jogou Liga dos Campeões, marcou 12 gols, deu 11 assistências e empilhou taças nacionais. Em fevereiro de 2026, foi emprestado ao Los Angeles FC, com vínculo até 30 de junho e opção de compra.

Talvez por isso o gol em Inglewood, na Califórnia, tenha parecido mais do que um lance isolado. Eustáquio joga no LAFC, a poucos quilômetros dali. Conhecia o ambiente, o gramado, a pressão e o peso simbólico de decidir uma Copa no quintal adotivo. Começou a partida como capitão do Canadá, escalado no meio-campo por Jesse Marsch, enquanto Alphonso Davies, ainda recuperando ritmo, ficou no banco e só entrou no segundo tempo.

Só defender não basta

A África do Sul fez o que precisava para sobreviver. Baixou linhas, protegeu o goleiro Ronwen Williams e transformou a partida em um exercício de paciência para os canadenses. O jogo foi tenso, amarrado, com cara de quem seria decidido por detalhe, erro ou bola parada. O Canadá teve volume, mas nem sempre teve clareza. Faltava o passe final. Faltava a batida limpa. Faltava alguém assumir o risco.

Eustáquio assumiu esse risco e foi feliz. Aos 47 minutos do segundo tempo, Alistair Johnston cruzou pela direita, a defesa afastou para a entrada da área, e o meia apareceu livre para controlar e finalizar no canto direito do goleiro sul-africano. Ele fez explodir em alegria e alívio a torcida canadense, que via o seu time mostrar mais ímpeto ofensivo, porém sem inspiração nas finalizações.

Eustáquio Maxime Crépeau chora após a confirmação da classificação
Com a festa dos companheiros ao fundo, o goleiro Maxime Crépeau chora após a classificação do Canadá / Fifa

O chute teve valor de biografia. Eustáquio é canadense, português, europeu de formação e norte-americano de presente. Representou Portugal na base, mas escolheu o Canadá na seleção principal. Estava no elenco da Copa de 2022, na campanha da Copa América de 2024 e agora virou personagem de uma partida memorável que será repetida por muito tempo no futebol canadense.

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O Canadá está nas oitavas. Vai enfrentar, em Houston, no dia 4 de julho, o vencedor de Holanda x Marrocos. Chega vivo, maior e carregado por uma certeza: às vezes, a história de uma seleção cabe em uma bola rebatida, um peito firme, um quique perfeito e um chute de Stephen Eustáquio.

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