A rodada de ida das oitavas de final da Copa do Brasil terminou nesta segunda-feira com a vitória do Athletico-PR por 2 a 0 sobre o Vitória, na Arena da Baixada. O resultado encerrou uma sequência de oito partidas marcada menos pela criação ofensiva do que pela cautela. Ao todo, foram apenas nove gols, número que iguala a menor produção desta etapa no século, registrada em 2019. Antes disso, somente a edição de 1990 havia tido um total inferior, com oito bolas na rede.

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A conta ajuda a dimensionar o que aconteceu. Foram 720 minutos regulamentares de futebol para nove gols, média de 1,12 por confronto — ou uma bola na rede a cada 80 minutos. Mais do que um acaso estatístico, o cenário expôs uma rodada em que muitos clubes aceitaram conviver com a igualdade, reduzir riscos e empurrar a decisão para poucos dias depois. O recorde mais evidente veio dos quatro empates por 0 a 0. Vasco e Fluminense, Atlético-MG e Juventude, Santos e Remo, além de Chapecoense e Cruzeiro, passaram 90 minutos sem alterar o placar. Nunca uma rodada de ida das oitavas havia produzido quatro partidas zeradas. O máximo anterior era de três, alcançado em 1992 e repetido justamente em 2019.

Copa do Brasil João Cruz comemora o seu gol, que abre o caminho para o Athletico-PR derrotar o vitória na Arena da Baixada
João Cruz comemora o seu gol, que abre o caminho para o Athletico-PR derrotar o vitória na Arena da Baixada / Athletico

Copa do Brasil sem apetite

Nem todos esses empates, porém, contaram a mesma história. Houve favoritos que controlaram a posse sem transformar domínio em oportunidades, equipes que desperdiçaram as melhores chances e adversários que fizeram da proteção defensiva um recurso para equilibrar confrontos de força desigual. Colocar todos os resultados sob o rótulo genérico de “falta de pontaria” seria simplificar uma rodada também marcada por ritmo baixo, desgaste e medo de comprometer a classificação ainda no primeiro encontro.

A própria demora para a primeira bola na rede resume o ambiente. Foram necessários 318 minutos até Maurício marcar para o Palmeiras no início do segundo tempo contra o Fortaleza. Depois de três jogos inteiros sem gols no sábado, o time de Abel Ferreira quebrou o bloqueio e venceu por 3 a 0, construindo a maior vantagem da fase. O Internacional também aproveitou o mando ao derrotar o Corinthians por 2 a 0. O Athletico completou, nesta segunda-feira, o pequeno grupo de anfitriões que saíram na frente.

Assim, apenas três dos oito mandantes venceram. Outros cinco deixaram seus estádios sem qualquer vantagem: Vasco, Atlético-MG, Santos e Chapecoense empataram sem gols, enquanto o Mirassol ficou no 1 a 1 com o Grêmio. O dado enfraquece a ideia de que jogar a primeira partida em casa oferece, por si só, um patrimônio. Palmeiras, Internacional e Athletico transformaram o ambiente em resultado; os demais terão de buscar fora aquilo que não construíram diante de sua torcida.

É preciso ousadia

A escassez também guarda relação com o formato excepcional desta fase. Os confrontos de ida e volta foram comprimidos em uma mesma semana. Em vez de aumentar a pressa, a proximidade parece ter produzido contenção. Sem tempo relevante para recuperação física, treinamento ou correção de rota, muitos treinadores atuaram como se o principal objetivo fosse chegar ao segundo jogo ainda vivos. O efeito foi uma rodada com pouca margem para improviso e ainda menos disposição para assumir riscos.

A partir desta terça-feira, esse comportamento deixará de ser possível. Juventude e Atlético-MG abrem nesta terça-feira, às 19h30 (horário de Brasília), em Caxias do Sul,  e Remo e Santos decidem, em Belém, às 21h30 (horário de Brasília), no Mangueirão. Nos dois confrontos, qualquer vencedor avança; nova igualdade leva a disputa aos pênaltis. Para clubes como Atlético e Santos, o 0 a 0 obtido em casa transferiu a pressão para ambientes em que terão a torcida contra e nenhuma vantagem numérica.

Na quarta-feira, Cruzeiro e Chapecoense, às 19h (horário de Brasília), no Mineirão, em Belo Horizonte; Grêmio e Mirassol, às 19h30 (horário de Brasília), na Arena do Grêmio, em Porto Alegre; Fluminense e Vasco, às 21h30 (horário de Brasília), no Maracanã, repetem a mesma lógica de equilíbrio absoluto. Um gol pode alterar por completo o roteiro de confrontos que chegaram à volta sem proteção. O Fortaleza, que vendeu o mando de campo, e vai jogar, às 21h30 (horário de Brasília), em Cuiabá, terá missão diferente: precisa devolver os três gols sofridos diante do Palmeiras apenas para alcançar os pênaltis.

Copa do Brasil Neymar no leilão
Em entrevista antes do leilão beneficiente, Neymar confirma que estará em Belém para decisão contra o Remo / Reprodução

 

 

Últimos classificados

A quinta-feira encerra as oitavas com duas tentativas de remontada. O Corinthians recebe o Internacional, às 20h (horário de Brasília), na Neo Química Arena, obrigado a vencer por dois gols para levar a classificação às penalidades ou por três para avançar diretamente. No Barradão, às 20h (horário de Brasília), o Vitória terá desafio equivalente contra o Athletico. Para os dois derrotados, não existe mais espaço para administrar o relógio ou proteger o empate.

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Os jogos de ida deixaram, portanto, duas competições diferentes para a volta. Cinco confrontos recomeçarão praticamente do zero, enquanto Palmeiras, Internacional e Athletico poderão explorar a ansiedade de adversários obrigados a se expor. A rodada que quase não teve gols talvez tenha preparado decisões mais abertas. Mas também deixou um alerta: quando o medo de perder ocupa mais espaço do que a tentativa de vencer, nem mesmo um mata-mata curto consegue produzir urgência.

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