A cobrança da torcida do Santos direcionada a Neymar traz consigo um peso simbólico enorme. Talvez o maior deles seja a metáfora da ausência de Pelé, do vazio deixado pelo Rei e de tudo o que ele significou para a gloriosa história do clube. Décadas depois, ver no camisa 10, ídolo contemporâneo e melhor jogador surgido no time nos últimos tempos, a personificação de uma esperança de dias melhores, vai muito além da coincidência. Psicologicamente, Neymar funciona como uma boia de salvação para aqueles que veem o barco afundar e esperam, desesperadamente, por um ato de coragem, ousadia e genialidade que os salve do naufrágio.
Mas Neymar não é Pelé. E essa constatação soa como um duro golpe de realidade para uma torcida que se sente desarmada diante da ameaça concreta de mais um rebaixamento. Imaginar esse cenário nos anos 60 seria impensável, porque o Santos era, simplesmente, um dos times mais fortes do planeta. Hoje, no entanto, o clube se arrasta entre fragilidade técnica, endividamento crônico e um abalo emocional diário que parece não ter fim.

É verdade que muitas vezes a torcida exagera no modo de cobrar. Mas também é fato que o Santos mal consegue juntar os cacos de suas pequenas tragédias cotidianas, quanto mais encontrar respostas para problemas estruturais que se arrastam há anos. Faz sentido, portanto, que a cobrança recaia em Neymar. Não porque ele seja culpado pela crise, mas porque nele se concentra a expectativa de dignidade e reação.
Pare de chorar, Neymar
Como disse um torcedor revoltado após a goleada vexatória de 6 a 0 para o Vasco: “se até você chora em campo depois de um vexame desse, o que a gente pode esperar desses outros caras que estão aí?”
É disso que se trata. A torcida olha para o elenco e não vê horizontes. Observa a comissão técnica e enxerga apenas equívocos sucessivos — de ter apostado em Cleber Xavier, a manter o time nas mãos de seu auxiliar até a chegada de outro treinador só porque ele é o filho de Tite. Não há também, neste momento, o alívio histórico de contar com a base dos Meninos da Vila. Joga-se, afinal, uma responsabilidade insuportável sobre garotos em meio a um ambiente devastado. Como esperar que Robinho Júnior ou qualquer outro menino opere milagres se até Neymar, com todo o seu talento, parece impotente?

É claro que Neymar ainda tem bola para dar. Mas a questão é: ele está disposto a assumir o peso de liderar um time em frangalhos, de ser mais do que o craque, mas também o símbolo de resistência? Com a vida que tem, com o dinheiro que tem, com o mercado que ainda lhe abre portas, Neymar certamente deve se perguntar diante do travesseiro: “o que estou fazendo aqui, no meio desse furacão?”
O recado certeiro do filho Davi
E então, em meio a tanta escuridão, surge um sopro de luz. No dia do vexame contra o Vasco, Neymar recebeu uma mensagem de WhatsApp do filho Davi Lucca. Um menino, com a pureza e o discernimento que às vezes falta a muitos adultos, escreveu:
Boa noite, pai. Sei que hoje foi um dia difícil para você e para nós, mas queria que você soubesse que nesses momentos difíceis, quando ninguém estiver do seu lado, eu sempre estarei aqui para te apoiar. Você é mais que um excelente pai, você é um ídolo, minha inspiração. Mesmo nos dias em que você chora, quero que saiba que eu te amo muito. Tenha isso em mente: sua família está ao seu lado para te apoiar em todos os momentos. Você é MEU pai, e eu sempre estarei aqui para você. Agora, erga a cabeça e vá para cima deles como você sempre fez. Você é foda. Te amo do fundo do meu coração. Vai pra cima deles! DAVI LUCCA
Só isso já explica por que, mesmo no fundo do poço, ainda vale a pena tentar. É a lembrança de que sempre há algo maior pelo qual lutar — seja pelo Santos, seja pela família, seja pela própria história.





