É verdade que o impedimento semiautomático acertou. A regra foi aplicada com rigor absoluto, e o gol de Davinson Sánchez, aos 45 minutos do segundo tempo, precisava mesmo ser anulado, porque o bico da chuteira do zagueiro colombiano ultrapassava a linha do último defensor português. Não há discussão técnica. A imagem é clara: havia menos de uma polegada de chuteira congelada no frame que acusou a infração.
Mas há, sim, uma discussão sobre a sensação que o futebol deixa. Porque, durante noventa minutos, no calor sufocante de uma noite de verão em Miami, a Colômbia foi melhor do que Portugal. Criou mais, arriscou mais, atacou mais e fez tudo o que se espera de uma seleção que entra em campo para vencer um adversário do tamanho dos portugueses. O gol saiu no último suspiro. Foi merecido. Só não valeu porque um software encontrou alguns centímetros invisíveis aos olhos humanos e até as imagens da transmissão de televisão.

Colômbia mais perigosa
Menos mal para os colombianos que o empate bastava. O 0 a 0 garantiu o primeiro lugar do Grupo K e, como prêmio, um caminho teoricamente mais acessível na primeira batalha da fase final, diante de Gana. Portugal, por sua vez, terminou em segundo e agora terá pela frente a Croácia, um adversário sempre perigoso.
O duelo pela liderança confirmou exatamente o que se esperava: muito equilíbrio, intensidade física, poucos espaços e uma evidente política de baixo risco dos dois lados. Ainda assim, a Colômbia foi quem mais tentou jogar. Foram 24 finalizações contra 13 dos portugueses, obrigando Diogo Costa a boas intervenções. Córdoba parou no goleiro português logo aos 16 minutos, enquanto Jhon Arias viu Rúben Dias salvar, praticamente sobre a linha, uma bola que já havia vencido o arqueiro lusitano. Portugal também respondeu. Bruno Fernandes desperdiçou a melhor oportunidade europeia na etapa inicial, ao finalizar à queima-roupa para grande defesa de Vargas.
Impedimento tecnológico
O segundo tempo ficou ainda mais cadenciado. O desgaste provocado pelos 31 graus registrados no Hard Rock Stadium às nove da noite reduziu o ritmo da partida e obrigou as duas equipes a administrar melhor suas energias. Foi nesse cenário que James Rodríguez apareceu como o grande maestro colombiano. Livre entre as linhas, distribuiu lançamentos e passes precisos para Jhon Arias, Luis Díaz e Luis Suárez, comandando praticamente todas as ações ofensivas da equipe de Néstor Lorenzo. Do outro lado, Portugal mostrou excessiva dependência de Cristiano Ronaldo, que pouco conseguiu produzir diante da consistente marcação sul-americana.
Quando o relógio marcava 45 minutos, enfim, veio a explosão colombiana. Quintero levantou na área, e Davinson Sánchez testou firme para as redes. O estádio inteiro comemorou durante alguns segundos. Até que a tecnologia entrou em cena. O impedimento semiautomático encontrou o bico da chuteira do defensor à frente da linha portuguesa. Gol anulado. Regulamento cumprido. Futebol frustrado.

Congo consegue façanha
Enquanto Miami lamentava um gol que não valeu, Atlanta celebrava uma das histórias mais improváveis desta Copa do Mundo. A República Democrática do Congo confirmou que este Mundial parece determinado a derrubar qualquer lógica. Depois de sair atrás logo aos nove minutos, com um belo gol de Shomurodov para o Uzbequistão, a seleção africana mostrou personalidade para construir uma virada histórica.
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Wissa empatou aos 22 minutos. A virada veio com gol de Mayele aos 32. E, já aos 45 da etapa final, Wissa fechou sua atuação memorável com o terceiro gol, decretando a vitória por 3 a 1 e um dos grandes feitos da competição. Com os quatro pontos conquistados, a RD Congo assegurou vaga entre os oito melhores terceiros colocados e ganhou o direito de enfrentar a Inglaterra no mata-mata. Um prêmio gigantesco para uma seleção que iniciou a rodada dependendo de uma combinação de resultados e termina escrevendo um dos capítulos mais surpreendentes deste Mundial.





