No vácuo da épica classificação do Corinthians a mais uma final de Copa do Brasil, Dorival Júnior escolheu fazer mais do que comemorar uma classificação. Com a diplomacia que sempre marcou sua trajetória, ele aproveitou o momento de glória na Neo Química Arena para sair em defesa dos técnicos brasileiros — uma categoria que, segundo ele, vem sendo sistematicamente desvalorizada por imprensa, torcedores e analistas diante do sucesso recente de técnicos estrangeiros no país.

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Não houve ressentimento explícito. Tampouco o tom agressivo e quase beligerante que marcaram, em passado recente, as manifestações de figuras como Emerson Leão e Oswaldo de Oliveira, inclusive direcionadas de forma pouco elegante a Carlo Ancelotti. O discurso de Dorival foi outro: sereno, calculado, mas nem por isso menos carregado de significado. Havia ali, sim, um contra-ataque. E havia também um inegável senso de ajuste de contas.

Dorival chega à sexta final de Copa do Brasil em momento que os técnico estrangeiros são mais valorizados / Corinthians

É verdade que sua fala não deixa de tangenciar uma defesa de reserva de mercado — algo sempre condenável num ambiente que deveria premiar competência, atualização e resultado. Mas também é verdade que o contexto ajuda a explicar o desabafo. Dorival acabara de eliminar o português Leonardo Jardim, técnico do Cruzeiro, na semifinal.

Dorival e Diniz na final

Horas depois, Fernando Diniz levaria a melhor sobre o argentino Zubeldía no outro confronto da Copa do Brasil, entre Vasco e Fluminense. Não por acaso, Dorival e Diniz foram os dois últimos treinadores da seleção brasileira antes da chegada de Ancelotti, tratado hoje como a única tábua de salvação para o sonhado hexa em 2026.

Fernando Diniz leva a melhor sobre outro treinador estrangeiro e volta a disputar mais um final na carreira / Vasco

Seleção brasileira

Há, portanto, um simbolismo difícil de ignorar. A fala de Dorival também carrega a marca de quem esteve muito perto de conduzir o Brasil a uma Copa do Mundo e ouviu, na sequência, que não era suficiente. Que faltava algo. Que o país precisava “olhar para fora”.

Talvez seu único equívoco tenha sido mirar o ataque diretamente nos jornalistas, como se a imprensa fosse responsável pelas decisões de clubes e confederações. Não é. Quem impulsiona a onda de treinadores estrangeiros é o mercado — e a percepção, cada vez mais difundida, de que os técnicos brasileiros ficaram defasados em relação aos colegas que circulam por outros centros do futebol mundial.

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Some-se a isso a força dos resultados: Abel Ferreira virou referência no Palmeiras, assim como Jorge Jesus foi no Flamengo. Mesmo derrotado recentemente por Filipe Luís numa final de Libertadores — fato lembrado por Dorival —, Abel segue como símbolo de um trabalho de excelência.

Crise dos treinadores?

Essa discussão, evidentemente, não se esgota numa entrevista pós-jogo. Até porque há uma pergunta ainda mais incômoda à mesa: como explicar que uma Copa do Mundo com 48 seleções não terá nenhum treinador brasileiro? Um fato inédito, histórico e revelador. Esse deveria ser o foco principal da reflexão de Dorival e de toda a categoria. Certamente não foi a imprensa quem decidiu por essa exclusão global.

Dorival foi anunciado como treinador da seleção em janeiro de 2024, no lugar de Fernando Diniz, demitido dias antes / CBF

Ainda assim, Dorival tem, sim, lugar de fala. Ele chega à sexta final de Copa do Brasil, vive no Corinthians um cotidiano de crises e problemas estruturais que talvez nenhum treinador estrangeiro suportasse por dois meses e segue entregando trabalho, resultado e equilíbrio. Pela elegância com que tocou na ferida — sem gritar, sem atacar pessoas, sem reduzir o debate a um “nós contra eles” —, merece ser ouvido com respeito.

Dorival Júnior é ético, trabalhador, sério, responsável. Faz bem ao futebol brasileiro. E quando alguém com esse histórico resolve falar, o mínimo que se espera é atenção. Não para concordar com tudo. Mas para entender o que está sendo dito — e, principalmente, o que ainda precisa ser enfrentado.

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