Por Savério Orlandi
O mês de abril marcou o período da apresentação das Demonstrações Financeiras e dos Relatórios de Administração dos clubes brasileiros, época de analisar o progresso da indústria e a performance isolada dos competidores e seus ciclos de desenvolvimento ou estagnação. As atualizações quanto as regulações e licenciamentos, somadas às próprias exigências do mercado, têm rendido documentos cada vez mais sofisticados que permitem uma visão ampla e lastreada sobre o que tem dado certo e o que precisa ser aprimorado no futebol, em um cenário de oportunidades, pujança e busca de consolidação.
O que se vê como destaque nos últimos anos é a crescente evolução das receitas dos clubes, que após a pandemia foram turbinadas pela afluência de recursos das Bets, por novos acordos de transmissão, pelo aumento dos valores de premiações e participações em competições, inclusive internacionais, como foi em 2025 com a Copa do Mundo de Clubes da Fifa, além das bilionárias quantias pelas quais são negociados os direitos econômicos de atletas no futebol mundial.

No caso brasileiro, os protagonistas invariavelmente citados como exemplos de boa gestão, Flamengo e Palmeiras, divulgaram seus números que são sintomáticos dessa tendência de incremento: um com faturamento da ordem de R$ 1,7 bilhão e outro de R$ 2,1 bilhões, indicando a força e recorrência dos seus fundamentos econômicos (incluem-se ainda programas de sócio torcedor, Match Day, patrocínios, produtos, prêmios…).
As receitas aumentaram
Assim, as fontes de receitas são cada vez mais sólidas e aptas a beneficiar toda a cadeia, notadamente os contratos dos direitos sobre as transmissões que compõem a parte mais expressiva das estruturas de receitas dos clubes e das SAF, e também a maior rentabilidade e bônus pela participação nas variadas competições do calendário.
Na prática, esse quadro tem levado o futebol brasileiro a ocupar uma posição de destaque no cenário global, sendo certo que no último exercício, o de 2025, a receita agregada dos clubes da Série A superou o patamar de R$ 9 bilhões. Isso coloca o Brasil, e o futebol brasileiro, entre os maiores mercados do mundo no tocante à geração de caixa operacional, o que decididamente não é pouco!
Mas os gastos são desequilibrados
Por outro lado, remanescendo como ponto crítico e de atenção às gestões vigentes, está a elevação das despesas e a dificuldade na adoção de controles ou critérios para maior previsibilidade, sobretudo quanto aos compromissos da folha salarial, que, de forma geral, consome entre 60% a 80% da receita total de um clube. O percentual é bastante superior à média dos mercados mais bem organizados, onde essa fatia gira em torno de 50% a 60%, comprometendo diretamente o fluxo de caixa e a capacidade de investimento e inovação.

Os dois clubes que têm servido de exemplo, Fla e Palmeiras, também abusam dessa realidade, apesar do fato da redução da dívida operacional líquida do Flamengo. O que não aconteceu com o Palmeiras. Mesmo com as suas receitas terem aumentado 31%, as despesas também subiram em 29%, o que significou na conta de chegada pouca melhora no resultado econômico.
Há ainda os gastos não previstos
Não bastasse o enorme “valor nominal” e a recorrentes obrigações com pessoal, a elas vão se acrescendo no decorrer da temporada fatores não previstos, como troca de treinadores e as suas vultosas indenizações, repatriações e prorrogações através de contratos longos e custosos, bem como os encargos financeiros decorrentes da própria sazonalidade das receitas, que, por vezes, obrigam os clubes a se socorrer das operações de capital de giro para o cumprimento dos seus compromissos ordinários.
A robustez econômica e o potencial da ampliação de receitas dos clubes exigem das administrações que elas se conduzam pelo caminho da racionalização da despesa, atuando para mitigar os riscos estruturais do mercado como a imprevisibilidade dos fluxos de caixa, curando o controle de custo e da estabilidade institucional, elementos fundamentais para que seja alcançada a expansão dos múltiplos. Ou seja: mais dinheiro em caixa.
Governança ou falta dela
Portanto, a questão é governança. O grande desafio das gestões é planejar e se valer de processos claros e viáveis para diminuição das incertezas. A sustentabilidade pretendida não se dará somente por intermédio de superávits ou recordes de receita, mas com a perenização dos recebíveis e o crescimento orgânico das despesas frente a custos que sejam mais realistas e controlados criteriosamente por parte de quem dirige.
SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
Quando exerceu a presidência do Palmeiras, o acadêmico e versado economista Luiz Gonzaga Belluzzo sugeriu para os seus pares que fosse pensada na auto-regulamentação do mercado com o estabelecimento de parâmetros. Mas essa ideia à época não ecoou, pois é algo realmente difícil de considerar quando envolve competição direta. Agora, a partir da aplicação das novas regras de sustentabilidade financeira do futebol, poderá ser criado o ambiente para melhoria nos controles e aperfeiçoamento da qualidade do gasto, o que não implica em deixar de realizá-lo, mas fazê-lo com critério, planejamento e disponibilidade orçamentária.





