Toda seleção campeã constrói uma narrativa sobre si mesma. No Brasil, há uma certa fixação pela ideia de tratar a seleção como uma família. E é justamente essa sensação que começa a ganhar força nos bastidores da seleção brasileira às vésperas da Copa do Mundo de 2026: a Famiglia Ancelotti chegou!

Tudo sobre a Copa de 2026

O termo não nasceu agora nem pertence exclusivamente ao treinador italiano. No futebol, costuma designar grupos cujo convívio profissional se desenvolve sobre bases que imitam relações familiares. É um conceito atraente porque remete a acolhimento, solidez, confiança, proteção e pertencimento. Mas, como toda família real, carrega também suas contradições. Não existe família perfeita. Em qualquer núcleo humano convivem afeto e tensão, solidariedade e ciúme, lealdade e pequenas disputas silenciosas – até a traição!

Carlo Ancelotti entendeu rapidamente e se adaptou muito bem ao cenário da seleção e do futebol brasileiro / CBF

A seleção brasileira conhece bem essa lógica. Talvez o exemplo mais emblemático tenha sido a chamada Família Scolari de 2002. Com Felipão ocupando naturalmente o papel de patriarca, o grupo atravessou turbulências, suportou críticas e terminou levantando a taça do penta, que até hoje permanece como o último título mundial do Brasil. O modelo foi retomado doze anos depois, na Copa de 2014. O discurso era parecido. O ambiente interno também. O desfecho, no entanto, foi diametralmente oposto. Terminou no trauma eterno do Mineirão e no inesquecível 7 a 1 diante da Alemanha.

Nem ao céu, nem à terra

A comparação serve para lembrar uma verdade simples: não existem grupos perfeitos, nem fórmulas infalíveis. Nem toda família vence. Nem toda equipe desunida fracassa (no Corinthians multicampeão dos anos 2000 os jogadores se estapeavam no vestiário com alguma frequência). Cada grupo responde ao seu próprio contexto, às suas lideranças, ao seu momento histórico e, sobretudo, à qualidade do futebol que consegue produzir dentro de campo.

Ainda assim, o conceito de família sempre encontra terreno fértil quando o assunto é seleção brasileira. Talvez porque a equipe nacional carregue um simbolismo diferente daquele dos clubes. Os jogadores não representam apenas uma instituição esportiva. Representam, ao menos na teoria, um país inteiro. O torcedor é levado a acreditar que aqueles 26 atletas uniformizados são uma extensão da própria sociedade brasileira.

Era o que Nelson Rodrigues chamava de “Pátria da Chuteiras”. A mensagem alto-astral dos patrocinadores, o discurso altruísta da CBF, a cobertura frequentemente ufanista de parte da imprensa e o velho apelo à união nacional ajudam a reforçar a imagem de uma grande família vestida de verde e amarelo, lutando contra o resto do mundo.

E a faca de dois gumes

É uma construção poderosa. Mas também perigosa.

Porque o ambiente familiar, quando levado ao extremo, pode se transformar em mecanismo de proteção contra qualquer crítica externa. A fronteira entre união e blindagem costuma ser muito tênue. Em diversos momentos da história da seleção, o discurso do “nós contra eles” ganhou força justamente sob o argumento da defesa do grupo. A crítica passou a ser tratada como traição. O questionamento virou sinônimo de pessimismo. Quem estava fora do círculo familiar era visto como inimigo, torcendo contra.

A seleção campeã de 1994 conheceu bem esse sentimento. Movido pelas cicatrizes deixadas pela eliminação de 1990, aquele grupo carregava uma evidente mágoa em relação a boa parte das críticas recebidas. O ambiente interno tornou-se quase uma trincheira emocional. Zagallo transformou essa tensão numa de suas frases mais famosas. “Vocês vão ter que me engolir” virou não apenas um desabafo, mas a tradução de uma mentalidade.

A diferença é que a Famiglia Ancelotti parece nascer em circunstâncias muito menos conflituosas.

Ancelotti sabe onde está

Carlo Ancelotti chegou ao Brasil carregando algo raro: unanimidade. Seu currículo lhe concede uma autoridade que poucos treinadores da história possuíram ao assumir a seleção. Sem favor algum está na prateleira dos três melhores técnicos do mundo – senão o melhor. Sua imagem pública também ajuda. Ancelotti não transmite arrogância nem autoritarismo. Ao contrário. Sua postura é a de um sujeito elegante, gentil no trato com as pessoas, um pai paciente, daqueles que falam baixo para não precisar gritar depois.

Os jogadores parecem confortáveis ao seu redor. Gostam de sua presença, aceitam seus métodos e, principalmente, acreditam em sua capacidade de conduzi-los ao sonho do hexacampeonato. Em troca, recebem afeto, serenidade e respeito. Até beijinhos carinhosos. O italiano compreendeu rapidamente que liderar uma seleção brasileira exige muito mais do que distribuir coletes em treinamentos ou desenhar esquemas táticos.

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Ancelotti entendeu o Brasil. E assumiu o “brazilian way of life”. Carleto já incorporou expressões locais, absorveu hábitos nacionais e aprendeu a navegar pelo peculiar universo das celebridades brasileiras, que, sobretudo na elite do Rio de Janeiro, vive uma realidade paralela na qual o país parece mais harmonioso do que realmente é. Com contrato renovado para o próximo ciclo mundial, talvez não demore para aparecer desfilando na Marquês de Sapucaí ou ocupando uma cadeira de jurado de algum concurso de dança nesses programas de auditório dominicais da TV. O processo de aculturação está em pleno andamento.

Sentimento de união

A presença de Davide Ancelotti na comissão técnica amplia ainda mais essa atmosfera doméstica. Pai e filho compartilham decisões, dividem responsabilidades e reforçam a percepção de que a seleção possui hoje um centro de gravidade construído sobre relações pessoais de confiança.

É daí que nasce a Famiglia Ancelotti.

Se ela será lembrada como a família que devolveu o Brasil ao topo do mundo ou apenas como mais uma narrativa sedutora criada antes de uma Copa, ninguém sabe. Por enquanto, o que existe é um país inteiro disposto a acreditar que aquele grupo encontrou algo que parecia perdido há muito tempo: a sensação de pertencer ao mesmo projeto.

Esperança e ilusão, afinal, costumam morar na mesma casa.

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