A Espanha terminou a maior Copa do Mundo da história como começou: fiel a uma ideia na qual a bola corre mais do que qualquer jogador e o talento só ganha sentido quando trabalha para o conjunto. O bicampeonato, conquistado com a vitória por 1 a 0 sobre a Argentina, na prorrogação, premiou um futebol construído sobre posse, pressão, paciência e confiança absoluta no modelo de Luis de la Fuente. Depois da taça, três espanhóis voltaram ao palco para receber distinções individuais. Rodri ganhou a ‘Bola de Ouro’ de melhor jogador; Unai Simón ficou com a ‘Luva de Ouro’; e Pau Cubarsí foi escolhido o ‘melhor jovem’. A Espanha só não levou a ‘Chuteira de Ouro’. Mas até essa ausência reforça a essência do campeão: não houve um goleador encarregado de carregar a equipe, e sim diferentes protagonistas a serviço do mesmo plano.

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Rodri foi a tradução mais completa desse domínio. Capitão, organizador e ponto de equilíbrio, determinou o ritmo dos ataques, protegeu a defesa e transformou a posse em controle territorial. Chegou à decisão com 648 passes certos, o maior número registrado por um jogador em uma edição de Copa. Ao escolhê-lo como o melhor do torneio, a Fifa premiou o cérebro de uma seleção que venceu mais pela compreensão coletiva do jogo do que por lampejos isolados.

Espanha Pau Cubarsí, Rodri e Unai Simón exibem os prêmios de melhor jovem, melhor jogador e melhor goleiro da Copa do Mundo
Pau Cubarsí, Rodri e Unai Simón exibem os prêmios de melhor jovem,´Bola de Ouro’ e ‘Luva de Ouro’ da Copa / Sefutbol

Retaguarda histórica

Unai Simón representou a segurança de uma equipe quase impenetrável. Disputou os oito jogos e sofreu apenas um gol, marcado por Charles De Ketelaere nas quartas de final, contra a Bélgica. Terminou sete partidas sem ser vazado e ajudou a Espanha a estabelecer o recorde de menor número de gols sofridos por uma campeã mundial. Antes dela, nenhuma seleção havia levantado a taça masculina sendo superada somente uma vez durante toda a campanha. Sua marca atravessou duas edições.

A sequência começou depois do gol japonês na fase de grupos de 2022, passou pelos 120 minutos sem gols diante do Marrocos e avançou em 2026. Quando De Ketelaere marcou, Simón estava havia exatos 650 minutos sem buscar a bola dentro da rede em Copas. Superou os 517 minutos do italiano Walter Zenga, recorde que resistia desde 1990.

Defesa firme

A defesa espanhola, porém, não pode ser explicada apenas pelo goleiro. Ela começava na pressão dos atacantes, continuava na capacidade dos meio-campistas de recuperar a posse e terminava numa linha raramente exposta. Simón foi o último homem de uma engrenagem que quase nunca ofereceu tempo ou espaço aos adversários.

Pau Cubarsí foi outra expressão dessa estrutura. Aos 19 anos, ganhou o prêmio de melhor jovem depois de atuar com maturidade incompatível com a idade. Ele não se tornou o finalista mais novo desde Pelé, como chegou a ser sugerido. Lamine Yamal foi o terceiro mais jovem a disputar uma decisão, atrás do Rei do Futebol e de Giuseppe Bergomi, enquanto Cubarsí apareceu em quarto lugar nessa lista histórica.

Mais importante do que a posição no ranking foi a naturalidade com que o zagueiro enfrentou alguns dos melhores atacantes do planeta. Seguro nas antecipações e preciso na saída de bola, mostrou por que a Espanha consegue renovar seus personagens sem abandonar a identidade. Ao lado de Yamal, também ajudou o país a produzir algo inédito: dois adolescentes titulares de uma seleção campeã numa final de Copa.

Mestre De La Fuente

A conquista ainda colocou a equipe de De La Fuente em outros capítulos da história. A seleção chegou a 38 partidas sem perder, com 29 vitórias e nove empates, superando a sequência de 37 jogos estabelecida pela Itália entre 2018 e 2021. A derrota espanhola para Portugal nos pênaltis, na final da Liga das Nações de 2025, entra oficialmente como empate, porque as cobranças não alteram o resultado estatístico da partida.

De la Fuente, aos 65 anos, tornou-se o treinador mais velho a conquistar uma Copa. A Espanha também passou a ser o primeiro país a reunir simultaneamente os títulos mundiais masculino e feminino e repetiu uma sequência que ela própria havia conseguido em 2008 e 2010: vencer a Eurocopa e, dois anos depois, o Mundial.

Mbappé
Mbappé fecha como o maior artilheiro dos Mundiais: pela segunda vez é o goleador de uma edição / Equipedefrance

Mbappé toma a artilharia

A única grande premiação que escapou da Espanha ficou com Kylian Mbappé. Mesmo com a França derrotada pela Inglaterra na disputa do terceiro lugar, o atacante marcou duas vezes, chegou a dez gols no Mundial e garantiu a Chuteira de Ouro. Foi a segunda consecutiva, depois dos oito gols marcados no Catar, em 2022, façanha jamais alcançada por outro jogador.

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Aos 27 anos, Mbappé terminou sua terceira participação como o maior artilheiro da história das Copas. São 22 gols em 22 partidas: quatro em 2018, oito em 2022 e dez em 2026. O francês ultrapassou Lionel Messi, que encerrou o torneio com 21. É um recorde monumental, construído numa velocidade que permite imaginar uma distância ainda maior caso ele dispute outra edição. O contraste ajuda a contar este Mundial. Mbappé levou os gols; a Espanha, o título. O francês terminou como símbolo máximo da produção individual, enquanto os espanhóis dividiram entre Rodri, Simón e Cubarsí as premiações que traduziram o funcionamento do campeão.

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