Terrão à venda: saída de Kauê para o Bahia é a crônica de um erro anunciado

Base do Corinthians já foi símbolo de resistência e orgulho, uma escola de craques que abastecia o time principal com regularidade

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A polêmica que apimenta o duelo entre Corinthians e Bahia neste sábado em Itaquera não nasceu dentro de campo, mas nos bastidores — e expõe mais uma ferida aberta no futebol brasileiro: a má gestão da base. Kauê Furquim, promessa de 16 anos formada no célebre Terrão corintiano, foi seduzido por uma proposta Bahia e mudou de camisa. Oficialmente, a transferência se deu dentro da lei: o clube baiano pagou a multa rescisória de R$ 14 milhões prevista em contrato, com recursos do Manchester City, controlador da SAF tricolor.

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Do ponto de vista jurídico, o Bahia nada fez de ilegal. Apenas acionou um dispositivo que o próprio Corinthians assinou. E é aí que mora o problema: como um clube que se orgulha de revelar talentos — e que historicamente fez disso uma marca — deixa seus principais ativos tão vulneráveis?

Kauê, atacante da base do Corinthians de 16 anos, assina com o Bahia por R$ 14 milhões / Corinthians

Depois da tranca arrombada, o Corinthians reage indignado, ameaça ir à Fifa e fala em “aliciamento imoral.” Mas a verdade é que, se o valor da multa era baixo para o mercado nacional, o erro foi interno. Mais um dentre tantos equívocos que têm marcado o calvário administrativo do Timão nos últimos anos. O clube simplesmente não protegeu o atleta, não ofereceu condições que o convencessem a ficar, e manteve a base como um balcão de negócios nas mãos de empresários e dirigentes de visão curta.

Corinthians assiste impotente

O Terrão já foi símbolo de resistência e orgulho, uma escola de craques que abastecia o time principal com regularidade. Hoje, é um terreno fértil para atravessadores, que sabem explorar a falta de política clara para integrar jovens ao elenco profissional. Sem plano esportivo e com contratos frágeis, o Corinthians assiste impotente a um desfile de promessas indo embora antes de se firmarem no Parque São Jorge.

Kauê não foi o primeiro, e dificilmente será o último. Enquanto outros clubes investem em blindar suas joias e criar pontes sólidas até o time de cima, o Corinthians mantém a porta aberta para o assédio, permitindo que empresários transformem o sonho de vestir a camisa alvinegra em mercadoria de leilão. De modo que quando um clube se conforma em ser intermediário da própria história, abre mão de mais do que jogadores: renuncia à sua identidade.

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Neste sábado, quando a bola rolar, talvez o Corinthians consiga os três pontos. Mas a derrota que realmente importa — a que se dá na gestão, no zelo e no futuro —, essa já está no placar há muito tempo.

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